domingo, 23 de dezembro de 2012

Espírito natalino: o poder de superação.


        Roberto estava a mil por hora. Cruzou a Avenida Dutra em sua motocicleta como se aquele fosse o último segundo de sua vida. Acelerava freneticamente enquanto sentia o ardor de raiva percorrer todo o seu corpo. Sentia-se acabado há muito tempo e carregava consigo uma explosão de emoções negativas. Na noite passada, havia acontecido o estopim. Em meio a mais uma discussão com o seu pai, relembrou-se do momento da adolescência, quando este mesmo homem, acabou com os teus sonhos.
        Embora tivesse os seus 25 anos, jamais apagara da mente aquela noite fatídica. Contara a seus pais que iria pra capital, a fim de construir a sua carreira como arquiteto. Para um pai severo, aquele era o maior desgosto que podia ouvir. Roberto ainda ficava atordoado ao pensar nas palavras que o velho lhe dissera: "Arquitetura não é coisa de homem! Cabra macho tem que pegar firme no batente, aqui na roça, rapaz". O jovem não se surpreendera, sabia do preconceito do pai, mas ainda assim, doía e como doía. Caminhou em direção a porta, porém o pai impediu-o de sair. Pegou-o pelo braço, arrastando-o para o fundo do casebre. Roberto tentava escapar, mas era magro, pequeno e fraco. O pai amarrou-o em um tronco da árvore, despiu-o e acertou-lhe dez vezes com a vara. Roberto engolia o choro, para não proporcionar o prazer ao teu pai, afinal, ele sempre fora humilhado, perante a todos da família. Na madrugada seguinte, fugiu pela mata e desde então, encontrava com o seu pai, apenas quando raramente ia visitar a mãe doente.
        De repente, Roberto virou bruscamente a moto e dirigiu em direção à sua antiga casa. Chegando ao local, esmurrou a porta com toda a sua força e se deparou com as suas irmãs, seus pais e alguns amigos de infância comemorando a ceia de Natal. Lágrimas caíram de seus olhos imediatamente. Sentiu compaixão, por um momento. Entrou no teu velho quarto e se trancou. Tocava as fotos que esquecera ali. Abriu todas as gavetas a procura de algo que lhe proporcionasse mais recordações positivas. Então, por azar, encontrou a jaqueta que usara no último dia que vivera naquele lugar. 
       Vestiu-a e parecia estar possuído por um ódio mortal. Transformou-se totalmente. A compaixão não lhe pertencia, havia ido embora. Buscou uma forma de sair de seu quarto, sem que ninguém o visse. Acabou pulando a janela. 
       Lívia, o primeiro amor de Roberto, mirou-o caído e posteriormente levantando-se da grama. Chamou Carla, despistou os outros e foi atrás dele. A moto estava estacionada na estrada, longe da casa principal. Tinham que percorrer um pequeno trajeto de terra, lama e crateras. Lívia e Carla o seguia, sem que Roberto percebesse. Correram em direção a ele e o jogaram-no ao chão.  Tiraram-lhe a jaqueta, na tentativa de fazê-lo esquecer por um tempo, as más recordações. 
       As duas amigas, resolveram levar a jaqueta com elas e se esconder, até que Roberto se acalmasse e pudessem dialogar. Refugiaram-se em um quarto que havia no território. Esconderam-se em uma espécie de caixa de madeira, grande, branca e com vidros laterais que estava encostada na parede. Tremiam de medo da reação de Roberto, temiam serem descobertas. 
       A porta do quarto se abriu e lá estava Roberto. Parecia fora de si, inconsequente, impulsivo e não aquele, por quem, Lívia nutria um enorme carinho, desde sempre. Ele aproximou-se da caixa, olhando-a por trás. As mulheres estavam extremamente apertadas lá dentro. Quando Roberto virou-se e deu alguns passos em direção à saída, elas abriram o tal compartimento e chamaram seu nome.
       O homem virou-se para que pudesse vê-las. Não podia conter a ira que sentia. Lívia resolveu pegar um isqueiro que estava em seu bolso, a fim de queimar a jaqueta e também as lembranças de Roberto. Ele lançou-se sobre Lívia querendo recuperar a lembrança ruim, como se quisesse mantê-la presa em seu interior. Mas foi em vão. Já era tarde e a jaqueta tornou-se cinzas.
Calmamente, Carla iniciou o seu discurso para com o amado. 
       - Roberto, você precisa se libertar deste passado, esta nuvem negra que não te deixa viver como antes. É preciso encará-la de frente, afinal, ao mesmo tempo que a sua história deixou inúmeras marcas, também fê-lo ser o que é hoje. Fê-lo crescer, lutar pela sua profissão e conquistar o que realmente queria. É preciso perdoar os seus pais, esquecer as desavenças que passaram e não trazê-las para o presente. Não carregue mais este fardo, ele só te enfraquece, te faz brigar com o seu pai e se afastar da sua família, que embora, tenha errado contigo, te ama. Pense neste espírito natalino, agora é o tempo de se superar. Reflita os inúmeros natais que o seu rancor não permitiu que estivesse aqui junto conosco. É hora de recomeçarmos, juntos!
       As pernas daquele homem bambearam e o seu coração estremeceu. Ela está certa, pensava consigo mesmo.
       Roberto olhou Lívia atentamente e foi ao seu encontro. Abraçou-a e protegeu-a entre seus braços. Beijou-a e sentiu-a como sempre quis. Após o longo beijo, sentiu-se como se ainda fosse aquele adolescente que sempre sorria ao vê-la. Ela estava ali, para ele. Carla se aproximou do casal e os três se abraçaram, entre risos. 
       Depois de um tempo conversando, Roberto, resolveu retornar ao casebre e celebrar o Natal com aqueles que amava. 




Observação: Tentei construir algo diferente em relação ao Natal, galera, abordando-o como um tema secundário, mas essencial para o desfecho do conto. Espero que gostem. Um Feliz Natal a todos e um próspero Ano Novo. Agradeço aos meus leitores que me auxiliaram a permanecer em mais um ano de blog. Obrigada pela motivação, comentários e afins.

4 comentários:

  1. Muito forte, o texto! Passa uma mensagem muito bonita para todos nós, de uma forma até surpreendente.

    De fato, muitas vezes guardamos rancores que não nos levam a nada e, pelo contrário, acabam por limitar a nossa vida junto daqueles que amamos. Às vezes é necessário superar o passado, mesmo sem necessariamente esquecê-lo.

    Gostei muito.

    Beijos.
    www.dilemascotidianos.blogspot.com

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  2. as pessoas poderiam refletir mais durante o resto do ano, e não ficar esperando o natal para fazer isso.

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  3. Esse seu conto me lembrou muito, mas muito mesmo um filme nacional: "Aparecida - O milagre"

    Se puder, veja-o depois. Trata-se de um tema bem parecido com esse e com um desfecho bacana também.

    De mais à mais, um feliz ano novo pra ti, garota.

    Um beijo, Tamires.

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  4. nice post & blog! Maybe we follow each other !? Let me know :) Greetings www.yuliekendra.com

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