sábado, 28 de abril de 2012

Universo paralelo.





     Em um dia de extremo calor, o arqueólogo estava preparado e ansioso para a sua primeira expedição na caverna egípcia. Ao olhar lá embaixo, um receio lhe assolou e a falta de experiência causou-lhe calafrios.            
     Contudo, desceu aquela imensidão com os olhos fechados e as pernas trêmulas. Ao alcançar o solo, enxugou o rosto, livrando-se dos respingos de suor.
     Começou a andar por entre as rochas e a escavar alguns lugares rasos. Precisava encontrar indícios de que naquele lugar, existiam artefatos de um povo antigo. Para ele, era uma grande missão e mal sabia se sairia de lá vivo, afinal o risco de desmoronamento era grande.
     Seguiu a diante em seu trajeto e encontrou um sarcófago. O local estava fechado. Removeu a pedra que estava em cima e deparou-se com inúmeros escaravelhos. Sentiu arrepios, mas a sua coragem era maior. Mesmo temendo o que encontraria dentro do sarcófago, afastou a tampa e mirou atentamente. Encontrou uma múmia, aos retalhos. 
     Nos instantes em que ficou maravilhado com a descoberta, ouviu um grito na caverna e as ruínas começaram a desabar. Recolheu o brinco de ouro que ainda encontrava-se intacto e procurou a saída incessantemente, porém parecia estar em um labirinto.
     Uma rocha caiu em sua cabeça e o deixou desacordado. Quando se levantou, fraco e com sede, observou uma luz na lateral da caverna.
     Guiando-se pela luz, avistou uma porta, mas o seu tempo era escasso e havia obstáculos em sua frente. Abaixou-se e começou a se arrastar por baixo de uma armadilha. De repente, ouviu uma voz e algo lhe interrompeu.
     - Bruno saia desse quarto já e venha almoçar.
     - Por que toda vez ela tem que interromper minha missão antes do final tão esperado?
     Bruno recolheu os lençóis do quarto, arrumou sua cama que estava cheia de areia e retirou os arames farpados do chão.
     Sua mãe o indagou: O que você estava fazendo lá Bruninho? Há horas está trancado naquele quarto.
     - Vivendo o meu sonho mamãe. Ou melhor, tornando-o realidade.   

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Ilhada por ilusões.


       Os raios solares se esvaíam naquele fim de tarde vazio. Tão vazio, quanto à ampulheta que segurava em sua mão. A garota enchia os dedos de grãos de areia e desejava colocá-los ali dentro. No entanto, sua vontade era bloqueada pelo término do tempo. Era tarde, tarde demais. Passou-se o primeiro dia.
       Na manhã seguinte, lá estava ela mais uma vez. No mesmo lugar onde ficava, até o sol se pôr. Deitou na areia e mexeu os pés. Desejava esculpir um desenho, porém não foi bem sucedida. Levantou-se rapidamente e começou a modelar um castelo, lembrando-se dos seus tempos de infância. O vento soprou forte e desmoronou o que ela havia construído. Por um minuto, ela pensou em desistir. 
       Atônita e perdida, olhou para o vidro vazio que a levava para um mundo de ilusões. Começou a enchê-lo naquela praia deserta.
       Após alguns minutos, a ampulheta estava completa, contudo uma lacuna insistia em permanecer. Um espaço vago e impreenchível.
       Passada a madrugada, ela acordou do sonho e sentiu seus lábios ardendo como em brasa. Descobriu que ainda havia tempo.  Mergulhou no mar e deixou com que as ondas a levassem para uma ilha. Percorreu as pedras, até encontrar o que procurava incessantemente. Tocou nos cabelos de Gustavo e o acordou com um belo sorriso. Deu-lhe um beijo no rosto e o presenteou com a ampulheta. Sentia-se salva, mesmo que estivesse rodeada por uma imensidão aquática. 



sábado, 7 de abril de 2012

(Des)embarque.




     O alarde da chaminé despertou-me, do pesadelo rotineiro. Naquele vagão de trem, comecei a ficar atordoada com a nostalgia. Há 2 anos atrás, um acontecimento modificou minha vida. Através de poemas, tentava revelar parte da angústia que me assolava. Em todos eles, a palavra ‘lealdade’, estava presente.
     De fato, uma mulher de 27 anos, ainda não descobrira o verdadeiro significado daquelas letras unidas. Abri a maleta, folheei o dicionário e novamente, parei naquela página. O canto da folha estava destinado ao significado que me apavorava. Li e reli inúmeras vezes, até soletrá-lo em alto e bom som: “Lealdade é a qualidade, ação ou procedimento de quem é sincero, franco, honesto e fiel aos seus compromissos.”
     Voltando ao tempo, lembrei-me da última conversa com Madelaine.
     Mad, como a chamava carinhosamente, entrelaçou seus dedos nos meus e beijou-me a testa, dizendo: “Não importa, o que aconteça ou quem apareça, sempre serei leal a ti e vc a mim. Estamos juntas.” O sussurro da melhor amiga, era melodia para meus ouvidos. Aquela a quem confiava meus maiores medos e segredos.
     Após alguns dias, os telefonemas cessaram e as visitas encerraram-se. Procurei-a incansavelmente, mas ela encontrava-se fechada pra mim. Embora eu não soubesse o verdadeiro motivo de tal ato, em meu interior, restava uma esperança, de que passaria e o tempo a traria de novo em minha amizade. Por fim, descobri que eram apenas ilusões e nada mais.
     Com um estrondo da roda dianteira, derrubei o café amargo que segurava em uma das mãos e conduzi-me ao presente. Encostei os dedos no rosto e senti as olheiras, de noites mal dormidas, pertencentes àquela época.
     Coloquei a xícara sobre a mesa e mirei rapidamente o meu amigo predileto, Billy. Com suas patas peludas, pulou em meu colo e deu-me uma enorme lambida na face. Mesmo gostando de sua companhia, aquele não era o momento adequado. Assentei-o no chão, em poucos segundos. Abri o compartimento de saída e resolvi experimentar de perto, o vento que batia na janela. Demorei algumas horas para retornar. Troquei os passos e arrisquei uma queda, perante aos ziguezagues do trem.
     Ao chegar em minha cabine, Billy estava com um olhar triste, porém ainda me aguardava quase intacto no local onde o colocara. A vista era semelhante desde que deixei o lugar, contudo havia uma peculiaridade que se destacava no meio. O dicionário estava marcado em uma passagem que dizia “Vasculhai o que existe de mais puro ao seu lado e não lamente pelo que já se foi.” 
     Surpresa, estava refletindo sobre o capítulo, quando de repente, o felino prostrou sua cabeça em minhas pernas, como se pedisse carinho. Em um insight, compreendi que andara pelo caminho errado. Aquele animal doce, movido pelo instinto, tornara-se fiel à sua dona, esperando-a chegar, enquanto o próprio ser humano dotado de razão, quebra suas promessas consideradas eternas.
     Ocorreu-me uma idéia mirabolante, mas ali estava o princípio de tudo: O homem é egoísta por si só. Nascemos egoístas. Contudo, precisamos deixar de ser hipócritas a ponto de cobrar do outro, o defeito que também está escondido em ti.
     Desembarquei na primeira estação e entreguei o livro ao editor. No ano seguinte, a publicação seria a marca de minha (re)descoberta.



domingo, 1 de abril de 2012

O fantasma da ópera ou o seu próprio fantasma?


   Vozes ecoando no ser de Christine, o Anjo da Música a guiava. Um anjo que mesmo obsessivo, a protegia e guardava o precioso momento da jovem. Ela esperava o segundo em que pudesse ouvir a vibração de seu timbre, sem medo. Sentir-se viva e acompanhada pela presença de seu pai.
   A sua estréia foi extraordinária. O público descobriu uma estrela. Apesar de ser uma simples garota, suas emoções eram grandiosas e transpareceram com vigor.
   O fantasma sorria por dentro, ao avistá-la além daquela doçura encantadora. O destino estava se cumprindo. Ver os nobres olhos de sua amada brilharem ao som daquela canção, era um prestígio. Contudo, ele queria mais. Queria que se realizasse o que estava escrito. Decidiu se revelar.
   Apesar de tantas angústias, levou Christine para junto de si. Mostrou-lhe o seu mundo, rodeado por escuridão. Ainda assim, existia uma luz. A bela cantante, fascinada por desvendar o mistério, arranca-lhe a máscara. As cicatrizes se abrem. A parte sombria do fantasma voltara.
   Vultos que o perseguem desde a infância. Rótulos que lhes deram e marcaram seu interior. Desejo de cobrir o seu rosto, arrancar a carapaça. Deixar de ser monstro e voltar a encarar um espelho. Desgaste físico que controla o seu emocional e aprisiona a sua alma. Seu ponto fraco, ou melhor, o ponto mais fraco. As fraquezas em seu íntimo, se construíram por si só, fruto das ações repugnantes de pessoas sem compaixão. Compaixão que é suplicada pelo amado de Christine, quando se depara com a morte de perto.
   O anseio de ser feliz com Raoul, impulsionou Christine a se contradizer. Seduziu o fantasma e fê-lo se deparar com a agonia. Em frente a uma multidão, a reação da platéia era insignificante comparada ao abismo em que o fantasma se encontrara.
   Raptou-a, levou-a para o fundo daquela ópera, a qual era seu refúgio. Alternava entre um amor louco e um ódio mortal. Em meio a tantas ambigüidades, o Fantasma recebe um beijo de Christine. Após este ato, permitiu-se derramar lágrimas. Procurou a redenção em seu próprio eu. Libertou-a e foi libertado. 



Obs: Interagi-me com este clássico pela primeira vez, hoje. Confesso que no tempo de lançamento do espetáculo, eu estava distante das 'obras-primas'. Decidi escrever sobre a subjetividade que o filme me passou e queria esclarecer que o desfrute de assistí-lo foi muito prazeroso.