domingo, 26 de janeiro de 2014

Nó(s)


Olho fundo,
de quem perdeu-se no mundo.
Um sorriso de candura,
transformado em total amargura.
O sonho de uma vida segura,
e a lembrança que me tortura.
Relembrando a doce ilusão,
de quando ainda existia emoção.
Agora estou só,
em um caminho cheio de nó(s).

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Lembranças atordoadas.


      A mesma chuva que cai lá fora é aquela que me inunda por dentro. Cada gota da água traz consigo as lembranças que, parecem, jamais serem esquecidas. É que não há um dia sequer, em que eu não acorde pensando em sua face, em seu jeito. É que há não há um dia sequer em que eu não ouça você me chamar e me pedir pra voltar, inconscientemente. É que há tempos você se faz presente em meus sonhos e, neles,  faz-me acreditar que ainda estamos juntas.
     Mas basta abrir os olhos em uma manhã rotineira, para deparar-me com o vento gélido e a solidão que deixaste aqui. Você permanece em cada célula do meu corpo, em cada suspiro prolongado ao lembrar dos nossos momentos, em cada marca da minha alma, em cada frio na barriga causado por um fato memorável ao seu lado, em cada arrepio na espinha ao pensar que você pode, agora, ser de outro alguém e em cada aflição, a qual, desejei que você estivesse aqui para acalmar.
     Você está na canção que eu ouço na rádio, nas letras de músicas românticas, nos lugares que frequentamos, nos momentos de prazer, nos gemidos de satisfação, no calor da minha cama. Você continua responsável pelo pulsar dentro do meu peito, pelo sangue que corre nas minhas veias.  
    Contudo, agora, também és responsável pela dor que me flagela, pelo sangrar de um coração, por um corpo deteriorado e um ser dilacerado. És responsável pelo sofrimento que me aflige desde que eu levanto até quando me deito, pelos meus pesadelos, pela volta do meu pensamento pessimista, pela minha falta de vontade para seguir em frente, pela minha conformação do exílio e do desamparo. E principalmente, tens total responsabilidade sobre a minha forma de amor/amar.

sábado, 18 de janeiro de 2014

[Final] O enigma dos seringueiros.


     Alan, Fernando e Ivan regressaram ao acampamento para terminar o trabalho nos dias que se seguiriam.
     Horas se passaram e estava anoitecendo. A lua despontava no céu, iluminando parte da floresta sombria.  O frio assolava os seringueiros, causando-lhes calafrios intermitentes. Os três fizeram então uma fogueira com os gravetos que encontravam-se próximos.
     Ao redor da fogueira, Fernando começou a indagar Alan:
     - Como conseguiu encanta-la? Como conseguiu resistir à tentação de não se apaixonar por Serena?
     Alan refletiu um pouco e apenas soltou um “não sei” abafado.
     A verdade é que ele não resistira. Fê-lo porque precisava salvar seus amigos, porém, Serena permeava a sua mente, desde o primeiro segundo que a vira. Pensava na sua face enquanto ele tocava a gaita e no seu gemido de prazer ao ouvir o som do encantamento.
     O dia nasceu com o barulho de uma chuva fina que acordou os amigos. Não tinham como escapar, teriam que trabalhar, faça chuva ou faça sol. Pegaram as suas ferramentas e foram às seringueiras, extrair o látex.
     Alan mal conseguia trabalhar. Não se concentrava, desviava o foco e por pouco não deixou Fernando cair da escada em que estava. Fernando e Ivan perguntavam o que estava acontecendo, mas Alan se esquivava das respostas. Então, a tardezinha Alan inventou uma desculpa qualquer para os amigos e se direcionou até o lago onde Serena se encontrava.
     Ao caminhar até o lago, uma chuva torrencial começou a desabar sobre a cabeça de Alan. Avistando o local, uma ponta de sorriso surgiu no rosto do seringueiro. Alguns minutos após o início da queda d’água, o lago começou a transbordar. Alan avançou e sem perceber, caiu em uma areia movediça, na qual ficou preso sem conseguir se mover. Alan gritava por socorro, enquanto a terra o engolia. Há poucos metros do lago, Alan debruçou-se sobre as rochas e tentou pular na água em um impulso. Contudo, sem sucesso.
    Quando toda a sua esperança estava se esvaindo, Serena apareceu por entre águas. Mirou o que estava acontecendo e fixou os seus olhos nos de Alan. Serena, arredia, aproximou-se com cautela e percebeu o clamor por ajuda vindo da alma do seringueiro. Lembrou-se da melodia de sua música, estendeu os braços e o levou de volta à superfície do lago.
     Enquanto isso, Fernando e Ivan avançavam por entre a mata até chegar ao lago, procurando pelo amigo. Ao avistarem Alan junto à Serena, resolveram tomar uma atitude para salva-lo. Ivan, impetuoso, pegou a lança que estava em sua mochila, gritou por Alan e arremessou-a de encontro à sereia. Alan só teve tempo de abaixar-se e jogar-se contra as águas do lago aliado à Serena.
     Ambos, contemplando o fogo da paixão, desapareceram nas profundezas do lago. Alan jamais regressou à terra firme novamente e vivera pelo resto de sua vida, junto à sereia amada.
     Fernando e Ivan voltaram ao acampamento, entraram em contato com o chefe, explicando o que havia acontecido mas ninguém acreditou. Então, regressaram à cidade, foram encaminhados a outros locais e receberam a notícia de que jamais voltariam a enviar seringueiros para aquela floresta misteriosa. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ser repugnante.

      

            Sou a podridão, a morbidez, a fraude, a mentira, a angústia, a dor, o sofrimento, a culpa, o desgosto.  Sou o pessimismo, o contraditório, a hipocrisia. Sou o choro estampado, a tristeza, o grito sufocado. Sou o meu próprio algoz, a minha própria destruição. Meus olhos já não transmitem mais verdade, tropecei em minhas próprias palavras, quebrei as minhas próprias promessas. O que antes era visto como algo digno de ser admirado em meu ser, hoje não está mais aqui. Aliás, nada está aqui. Como é sentir-se repugnante? Como é sentir que todos os seus princípios foram desviados por si mesma?

sábado, 11 de janeiro de 2014

[Parte 3] O enigma dos seringueiros.


    Chegando ao local, recebeu um aviso da guarda nacional dizendo que esta só conseguiria chegar à Floresta após dois dias. Alan não podia esperar.
    Alan deitou-se, tamborilou os dedos sobre o abdômen e pôs-se a pensar em uma forma de encontrar seus amigos. 
    Alan então lembrou-se de seu passado onde quando criança, diversas vezes, fora encantador de serpente. Além disso, o homem tinha um dom peculiar, era o único que conseguia encantar as serpentes através de uma gaita e não de uma flauta.
    Pegou a sua gaita que estava guardada e decidiu tentar o encantamento da sereia. Dirigiu-se até o lago, entrou na água e esperou o canto alucinante. Quando Serena soltou a sua voz, Alan começou a tocar gaita acompanhando-a. 
   Serena sentiu-se incomodada com aquela melodia. Sempre fora a dona das notas musicais e agora estava sendo desafiada. Serena decidiu cantar ainda mais alto, porém o som da gaita era mais estridente que o da sua voz. Vencida pelo cansaço, Serena cessou o canto e passou a ouvir apenas a música que Alan tocava.
    Serena tentava resistir, mas a melodia parecia invadir a sua metade humana. Alan se aproximou da sereia que, hipnotizada, cedeu ao seu pedido e levou-o para onde seus amigos estavam.
    No fundo do lago, Alan encontrou Fernando e Ivan desacordados. O encantador de sereia fê-la tocar nos seus prisioneiros e quebrar o feitiço. Envolvida pela canção que soava da gaita, Serena o fez.
    Quando os dois despertaram, Alan os levou para a superfície. Nadaram incessantemente até chegar às rochas e depois, encaminharam-se para o acampamento.
    Alan parou de tocar a gaita, olhou para trás e ainda mirou Serena clamar por mais música. Ele sorriu, vitorioso, balançou a cabeça negativamente e observou a volta da sereia para as profundezas daquele imenso lago.
    Os amigos entreolharam-se e comemoraram juntos o despertar do encantamento.  

sábado, 4 de janeiro de 2014

[Parte 2] O enigma dos seringueiros.


    O sol já estava começando a se pôr quando Alan ouviu um rugido perto do acampamento e acordou assustado. Olhou mais a diante e mirou uma onça caçando sua presa.
    Ainda meio sonolento, percebeu que os outros não tinham voltado ao acampamento. Não imaginava onde eles podiam estar, mas ainda assim, sentia-se despreocupado, pois Fernando e Ivan avisariam pelo rádio se estivessem com algum problema.  
    Alan resolveu colher algumas frutas nas árvores que rodeava o local. Após subir em alguns troncos, conseguiu apanhar seu jantar do dia. Quando voltou para a barraca, a noite estava estampada no céu. Alan começou a pensar que haveria algo de estranho na demora dos amigos. Decidiu procurá-los.
    Ligou a sua lanterna e passou a chamar por Fernando e Ivan. Olhou para o chão e viu as marcas de pegadas da bota de Fernando. Seguiu-as.
    Percebeu que as pegadas terminavam na areia que antecedia as rochas. Refletiu por um minuto e resolveu regressar ao acampamento para iniciar as buscas no dia seguinte.
    Pela manhã, Alan avisou aos donos da empresa sobre a situação e o desaparecimento. Além disso, solicitou ajuda para a guarda nacional. 
    Com o intuito de não perder tempo, Alan iniciou a procura sozinho até que a guarda chegasse. Voltou para perto das rochas, fitou o lago e avistou um objeto inusitado que não vira na noite anterior. O boné usado por Ivan estava ali boiando sobre a água.
    Alan mergulhou e capturou o boné. Olhou ao redor a fim de encontrar mais algum vestígio. Agora, teve a certeza de que seus amigos estiveram ali.
    Então, a voz doce, mais uma vez cantou. Alan ficou atordoado e não sabia o que estava sucedendo. Serena apareceu para o homem, tornando sua visão mais bela. Alan esfregou os olhos, pensando que fosse uma alucinação, mas não o era.
    O ritual de sedução iniciou-se novamente. Quando Serena ia beija-lo, Alan mirou sua cauda e percebeu que estava sendo encantado por uma sereia. Desvencilhou-se dos braços de serena e nadou até alcançar as rochas. Subiu sobre elas e correu para o acampamento.