terça-feira, 29 de maio de 2012

Vivências corrompidas.


      Mariana encontrava-se em um parque local de São Paulo. A tempestade ameaçava começar naquele dia nebuloso. Ameaças eram recorrentes na caminhada da estonteante garota ruiva de 17 anos. A apreensão era irreal para os que a rodeavam, no entanto, a veracidade deste sentimento perfurava sua mente, desencadeando inúmeros processos de esquiva.
     Como de praxe, antes do primeiro pingo de chuva deslizar sobre sua pele, Mari correu apressadamente pelo atalho de areia. Ao chegar na avenida, entrou no primeiro táxi que mirou. Seu semblante exausto, era visível.
     Avistou aquela casa rosa tão familiar e transpô-se do veículo, rapidamente. Quando abriu a porta de seu lar, os raios solares se expandiram, deixando o céu azul.
     Após encarar aquela cena controvérsia, encostou a mão em sua face, encobriu os olhos e balançou a cabeça negativamente. Inconsolável, a jovem balbuciou algumas palavras: "Aconteceu novamente."
     Subiu as escadas, esmurrou a parede do quarto e deitou-se na cama. Alguns minutos se passaram, até que a ruiva notou a ausência de seu caderno. Este pequeno objeto assemelhava-se a um diário que guardava parte da sua trajetória. Um temor lhe assombrou e então, sentiu-se desolada.
     Em meio a tropeços fez o percurso em direção ao parque. Lembrou-se da última vez que manuseava o artefato e observou o balanço em que sentara. Porém suas expectativas de desvendar o paradeiro, foram frustradas, ao perceber que o ambiente estava vazio.
     Antes que pudesse se questionar do desaparecimento de seu "diário", deparou-se com um homem de óculos. Tal indivíduo, extremamente robusto, folheava um caderno.
     A ruiva logo sorriu e resolveu aproximar-se daquele estranho. A enorme concentração dele, era intrigante aos olhos da jovem. Cautelosa, Mari, pediu-lhe a devolução do caderno. 
     Pedro procurava uma resposta para sua indagação. De repente, pronunciou-se um som de seus lábios: 
     - Por que todas estas páginas estão em branco?
     A ruiva envergonhada, respondeu: - Desde que adquiri o caderno, tenho anseios por rabiscá-lo, contudo, o acaso ainda não me proporcionou chances para preenchê-lo.
     - Será que você conseguirá abster-se para sempre? 
     - Mas eu não estou em abstinência, Pedro. Não entendo o que quer dizer.
     Pedro voltou-se para olhá-la, capturou a caneta que estava no chão e escreveu no centro de uma folha:  "A vida é um período breve em que cada minúsculo momento precisa ser usufruído com intensidade."
     A partir deste instante, Mari, chocou-se com a sua realidade. Um turbilhão de decisões vieram à tona. Decisões que eram barradas pela fuga. Fuga controlada pelo receio de errar. Erros que propiciaram as grandes linhas desocupadas daquele pequeno caderno.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Pseudo-controle.



    Ei, garota, pare de controlar o mundo! Coloque seu pequeno globo sobre a mesa e deixe-o superar suas expectativas. Permita que esse planeta se distancie de suas mãos. Procure o teu mundo, procure se encontrar.
    A tua adorável omissão, tolera a compreensão do superficial, camuflando o profundo. Existe mais que somente terra e mar!
    Quem um dia nunca se emocionou descontroladamente? A essência da vida está te perseguindo e tu não sairás ilesa.
   Afinal, tua racionalidade cederá aos sentimentos devastadores.
   As fronteiras fixas do teu interior serão quebradas e se instalarão vestígios de amores indesejados. Permearão tua capa protetora e enfim, sentirás.
   Embora seja contra o teu querer, é algo inevitável. Um amor à flor da pele, do tipo avassalador. Forças serão esvaídas até sentir-se fisgada. 
   Entrarás em conflito. Ouvirás um duelo repetitivo entre os teus lados sensível e rigoroso. Escutarás ambos, dialogando em sua mente e perderás a razão.
  A fonte de tua frieza se dissipará e se deixarás levar pelo desconhecido.
  Arriscarás: trocarás o certo pelo duvidoso.
  O indeterminado a determinará!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Viagens de um sonhador.

 

        Entre as mais belas árvores do bosque, escondia-se um garoto prodígio. Desde muito pequeno, era colocado em situações de risco, pelo seu tão amargo destino. Seu pai, um lenhador de barbas falhas, fora assassinado pelo jagunço da região. Sua mãe, caiu em depressão após o acontecimento e encontrava-se deitada em uma cama.
       Certo dia, quando a fome lhe pegou de jeito, o menino decidiu correr atrás de um alimento. Os frutos já não amadureciam mais, as folhas estavam desidratadas. Sem nenhum lenhador digno para cuidar daquela imensidão verde, a situação ficava mais difícil. Em meio a pensamentos e tropeços, Juan avistou uma maçã vermelhinha caída ao chão. Ela destacava-se devido à sua cor, perante o cenário desgastado da floresta.
       Ouviu o barulho do seu estômago e começou a chorar. Voltou para casa correndo. Embora tivesse apenas uma maçã, o menino doou-a à sua mãe, sem demonstrar a sua subnutrição.
       Com o passar do tempo, apareciam mais e mais frutos, um em cada lugar, como se fosse uma trilha. Juan começou a ficar intrigado com aqueles fatos repetitivos.
        Em uma manhã chuvosa, após uma melhora de sua mãe, levou-a para um passeio na mata. Segurando sua mão firmemente, Juan guiava aquela senhora de cabelos negros pelo rasto de frutos. Dessa vez, a caminhada estava mais longa. Eram inúmeros frutos, além de flores que surgiam rapidamente, originando novas sementes. Quando os dois alcançaram a última semente, ficaram surpresos ao mirar o que estava a 1 metro de distância deles. Era gigantesco, de várias cores e retalhos. Era um balão de ar quente.
       Aquele balão era o objeto mais lindo já presenciado por eles. Em meio a tanta emoção, os dois se abraçaram forte. Intercalando sorrisos com lágrimas de emoção entraram dentro do cesto. Aqueceram o ar e acenderam o fogo, enquanto o balão subia livremente no céu azulado. Decidiram embarcar nesse desafio. Juan era um garoto que nunca deixou seus sonhos de lado, mesmo após a perda de seu pai. Como um grande sonhador, queria mostrar o mundo para sua mãe e fazê-la voltar a viver.
      Algumas horas com aquela vista panarômica de vôo, incentivaram Juan a refletir sobre os últimos acontecimentos. Ao passo que o ar batia em seu rosto e o balão sobrevoava o Rio, o garoto chegou à conclusão de que aquelas sementes tinham um toque de mágica. Eram sementes especiais e não estavam ali, por acaso.
      As sementes de uma forma quase que inacreditável guiaram-lhes para aquela linda descoberta. As sementes denotavam vida, ou melhor, a retomada dela.
      Com os olhos marejados, manobrou o balão, segurou-se na corda que o estruturava e disse para os quatro ventos: ‘A eternidade é o limite, para um viajante sonhador’.
      Feito isso, fitou sua mãe atentamente e como um guerreiro disse-lhe: ‘Prepare-se mamãe, uma viagem inesquecível nos espera. Canadá aí vamos nós.’
      Do alto, seu pai sorria ao ouvir as palavras do filho. Finalmente, Juan havia encontrado o sentido que ele o mostrara, através dos frutos. Sua última imagem antes de partir para o lugar eterno, foi um pontinho minúsculo desaparecendo no meio das nuvens.


sábado, 5 de maio de 2012

Inércia Melancólica.



     Sinto falta do que não aconteceu. Dos sorrisos perdidos, das oportunidades não aproveitadas e das chances que passaram imperceptíveis perante os meus olhos. Pois, hoje, estou aqui, assim, apática. Uma apaticidade que tornou-se rotineira em minha vida.
     Estou presa em um ciclo. E talvez eu nem queira sair. Estar sozinha, é essa a questão. Gosto da solidão, contudo, às vezes penso nas conquistas que me pertenceriam, se não tivesse usado a minha tão infame negligência.
     Fecho os olhos para aquilo que na minha concepção é incorreto, mas que ao mesmo tempo, me faria feliz. Indo contra a minha felicidade, a favor da felicidade alheia. Será que é esse mesmo o caminho?
     Tal contexto transformou-me em uma garota racional e sem reação.
     Vejo os meus dias, demorarem. As horas são eternas e redundantes. O mesmo dia se repete, ao longo dos meses. Tudo está igual, nada muda.
     Embora eu esteja no lugar de origem, meus pensamentos voam descontroladamente ao local em que eu realmente desejava estar.
     Desejos que não são considerados e jamais saciados. Desejos que encontram-se detidos pelo meu ser. Um ser que vive, contudo, vive uma farsa.
     Não existem pulsões, sinto-me em um bloco de gelo, destinada a uma caminhada que poderia ser diferente. Elaborando sacrifícios que custam caro, caro até demais. Custam a minha prosperidade.
     Os planos futuros se perderam. Estou abitolada, alienada à um futuro já predestinado. Percebendo a ausência de uma história concreta, não me queixo, apenas recordo daquela simples frase que define os meus dias atuais: “Cada escolha, uma renúncia”. 


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Amor da meia noite.


       Rodopios no ar faziam-na girar com enorme leveza. Seu vestido vermelho, reluzia por entre as ruas escuras daquela pequena praça. Combinado com a flor que prendia seu cabelo, estava em perfeita sintonia. Olhares se cruzavam. Dedos entrelaçados deslizando suavemente uns nos outros, seguindo a canção da meia noite. Seus sapatos de cristal eram apoiados nos dele. Ele, aquele homem esguio de cabelos ondulados e sorriso encantador. Seu cabelo loiro assemelhava-se a um anjo, seus olhos azuis pareciam águas do mais lindo mar. Ele a segurava firmemente pela cintura, enquanto sentia os braços dela em volta de seu pescoço.
       O ritmo era perfeito. A lua brilhava, o céu estava imenso de estrelas. Os sons dos galhos balançando nas árvores eram como uma melodia.
       O frio aparecia repentinamente. A garoa da madrugada estava por vir. A mulher sentou na beira de uma ponte e constatava que aquele era um dia inesquecível em sua vida. Seu anjo retirou o casaco e o ofereceu para esquentá-la. Alguns segundos se passaram e ela resolveu levantar-se. Andou meio metro, encontrou o seu amado e deu-lhe o beijo de despedida. Seguiram pelo beco sem saída até chegar à linha do trem. O vagão já era perceptível de longe. Eduarda partiria.
       Ela encolheu-se nos braços do seu amor e lágrimas encharcaram o paletó de Pedro. Miraram-se por longos minutos, esperando o momento derradeiro tomar conta da cena. Encostaram os lábios e disseram juntos: ‘- Eu vou te amar pra sempre’.
       A chaminé do trem interrompeu-os. Eduarda afrouxou o cabelo e soltou-o em longos cachos dourados. Feito isso, deu-lhe a flor vermelha, como símbolo do amor eterno.
Pedro sentia a presença de sua mulher naquela pequena flor. Jurou cuidá-la. Ele não a deixaria morrer.
      Dez anos mais tarde, um homem com barbas meio grisalhas e cabelos calvos, estava sozinho à meia-noite na estação de sua cidade. O lenço branco na janela, indicava que a parada do trem, seria naquele local. Os passageiros esvaziavam o vagão e a aflição do homem, apenas aumentava. A última passageira lhe chamou a atenção. Quase que irreconhecível, no entanto, com a mesma beleza, avistou Eduarda.
      Pedro segurava a rosa vermelha que ela havia lhe entregado naquela última noite. A flor, estava seca, porém um pequeno brilho permanecia. Ao se abraçarem, a rosa renasceu, assim como o amor que estava guardado há tanto tempo, porém que jamais deixou de existir.