domingo, 21 de dezembro de 2014

Infância perdida.


    Há muito tempo, venho me questionando em relação às nossas crianças contemporâneas.  Recentemente vi uma notícia sobre um spa infantil na Espanha, que oferece um “dia de princesa” para meninas acima de 5 anos.  Acredito que a infância está sendo extremamente “perdida” na atualidade e a vaidade exaltada precocemente.
      Todos estão correndo contra o relógio e a quantidade de informações que nos é passada desde os primeiros anos de vida é exorbitante. A maioria dos pais não tem mais tempo, devido aos compromissos diários, de ficar em casa com os filhos, deixando-os entretidos com a tecnologia alienante. E então, as crianças entorpecidas tecnologicamente, acabam por lidar com o “novo”, com o “progresso” de uma forma diferente.
   O fato é que a maioria das crianças tem desperdiçado sua essência, crescendo rodeadas por um universo extremamente erotizado/sexualizado, onde não há lugar para inocência, para a pureza, as quais eram tão enaltecidas desde os primórdios.
  Em contrapartida, após crianças sexualizadas encontramos adultos infantilizados, homens e mulheres que buscam reviver a infância passada, justamente na meia-idade. Que loucura não? Aonde isso tudo irá parar? Está tudo de pernas pro ar!

sábado, 22 de novembro de 2014

"A beleza machuca".


       Nos primórdios da humanidade, a alma era inseparável do corpo, segundo as teorias dos filósofos antigos. Com o passar dos anos, por meio dos estudos metafísicos, adotou-se a dualidade alma-corpo ou mente-corpo. A partir disso a alma/mente tornou-se valorizada, como uma espécie de projeção do nosso ser, de autopercepção e de “ir além”. No entanto, com o advento do capitalismo, houve a supervalorização do corpo e a busca pelo físico ideal, deixando a alma/mente como mera coadjuvante.
      Hoje em dia o ser humano possui uma tendência (quase que inata) de priorizar a sua imagem exterior, vendo-a como resolução de todos os problemas e conquista da felicidade.  Utilizam o corpo de diversas formas, mas acabam se esquecendo do verdadeiro “eu” que está maquiado ali dentro.
      Tal realidade é ainda mais intensa no mundo da moda. Muitas mulheres sonham desfilar em uma passarela, para serem aplaudidas e reconhecidas. Porém, a fim de alcançar o tão almejado sucesso, algumas se perdem no caminho. Há uma busca compulsiva e insaciável pela perfeição, através de dietas ferrenhas, exercícios físicos excessivos, os quais podem desencadear patologias como a anorexia e a bulimia.
      As câmeras, o palco, as agências e a mídia, costumam transmitir ao público uma visão eufórica, como se fosse algo fácil e bastante tangível, mas escondem/ofuscam o verdadeiro mundo da modelagem. Um mundo em que há sofrimento, pressões, exigências por um padrão, que prejudicam as pessoas deste meio e não são noticiadas nos jornais. Mortes são apagadas pelos holofotes.
     Assim, às vezes as (os) modelos carregam fardos dolorosos por toda a sua carreira a fim de atenderem aos estereótipos sociais. Em contrapartida, a alma passa a se sentir cansada e precisa ser zelada, reformada, tanto quanto o corpo.  
     Portanto, é necessário importar consigo mesmo de forma completa, visando o todo e ponderando os cuidados entre alma e corpo.
                                                                                                                                                                         “É a alma que precisa de cirurgia.” 

    Texto baseado na canção Pretty Hurts interpretada por Beyoncé.

domingo, 9 de novembro de 2014

Silêncio maldito.


Fique silenciada,
com a  alma desolada.
Continue remoendo,
permaneça se doendo.
Silêncio,
trate-se com dispêndio.
Palavras invalidadas,
liberdade surrupiada.
Cale-se,
e mate-se.
Mate-se lentamente,
torturando a sua mente.
Se deixar de dizer,
isso lhe fará morrer.
Aos poucos ruminando,
por dentro detonando.
À ponto de explodir,
e por fim, rescindir.

domingo, 2 de novembro de 2014

Sobrecarregada.


      Olhos cansados, mente fatigada, corpo sobrecarregado. Carregava o mundo nos ombros há muito tempo e não suportava mais tamanho sobrepeso. Era considerada mulher íntegra, honesta, boa, mas escondia sua verdadeira personalidade. Estava moldada segundo às vontades alheias. Queria ser tudo, para todos. Não contrariava terceiros, desconhecia a negação para o outro.
      Entrava em relações, as quais, agia de forma patológica, como se dependesse da pessoa para viver, como se quisesse ser aprovada em cada segundo que se passava. Fora muito rejeitada, o que deixou marcas. Marcas que tornaram-se intrínsecas ao seu interior.
     Tinha uma enorme dificuldade de deixar as pessoas irem embora, não conseguia compreender o ciclo da vida, onde àqueles que se dizem “para sempre”, quase sempre se vão. Poucos ficam. Mesmo assim sentia-se culpada, sem ter, na verdade, culpa alguma.
Colocava-se na posição de objeto, era “usada”.  Procuravam-na quando precisavam, utilizavam-na para crescer. Ela afeiçoava-se com a dor e por isso se submetia ao cúmulo do sofrimento para não perder quem ama. Acostumara-se a sofrer internamente.
     Era pouco profunda na maioria de suas interações, por puro medo. Medo, este, o qual se originara de relações anteriores e que criou traumas indeléveis em seu eu.  Medo de ser magoada novamente, medo de não ser suficiente, medo de ser traída, medo de ser enganada.
     Assume papéis que não são dela, mas que lhes atribuem. Talvez pra agradar, talvez pra se sentir útil e melhor consigo mesma. Tem uma autoestima baixa, irrecuperável.
     O pior de tudo era  que ela sabia. Sabia do que estava acontecendo, sabia do que a rodeava, sabia quem era realmente. Sabia, mas nada fazia.  Não se transformava por benefício próprio, apenas para os alheios. Onde irá parar alguém que vive para os outros? 

domingo, 26 de outubro de 2014

Doar-se ou doer-se?


      Nós quase sempre deixamos escapar pelas mãos, aquilo que nos faz pulsar o coração. Somos temerosos o suficiente para buscar o que queremos, inseguros o suficiente para lutar pelo que não temos, tolos o suficiente para esconder sentimentos e errantes o suficiente para abrir mão do que nos torna realmente humanos.
     Onde encontrar o amor? É uma de nossas primeiras indagações. Contudo, o mais adequado seria: “O que fazer para que o amor permaneça?”. Para encontrá-lo é uma luta, mas para mantê-lo é uma vida.
   Muitos se deparam com a palavra “amor” e são impedidos de entendê-la ou senti-la.   Poucos são os que se arriscam, com a cara a tapa, para ter esse prazer deslumbrante. Alguns falam, contudo não sabem o que dizem. Outros são incrédulos, talvez porque nunca tiveram o doce gosto de amar e ser amado.
    O amor dispensa apresentação, explicação ou significado. Pelo contrário, requer exclusivamente sentimentalismo. Afinal, de que adianta amar se não nos doarmos? De que adianta amar se não nos valorizarmos?
    Tal sentimento encontra-se vinculado à dor, não porque amar é sinônimo de sofrer, mas porque nós, imperfeitos como somos, acostumamos a optar pelo caminho menos danoso. Porém, quem garante que este caminho irá nos trazer a felicidade tão ansiada?
      Portanto, não sejamos incompetentes ao amar, mas sim corajosos e determinados o bastante para nos jogarmos nesse emaranhado de emoções. 

domingo, 19 de outubro de 2014

[Parte 2] Rosas do Destino.


       Na noite seguinte, Adriane saiu para um show no barzinho mais próximo de sua. Quase no fim da festa, avistou Thiago e Camila. Thiago recebeu uma ligação, que deixou Camila extremamente enciumada. A briga havia começado. Thiago saiu transtornado e deixou Camila sozinha. A menina se pôs a chorar copiosamente e decidiu ir ao toalete. Adriane percebeu que era a hora de agir. Colocou uma flor cor-de-rosa na cadeira próxima à de Camila que significava o romantismo, a ingenuidade. Ao chegar e se deparar com a flor, Camila pegou-a, abriu um largo sorriso e foi procurar Thiago. Após a entrega da flor com toda a sua simbologia, os dois resolveram conversar e finalmente se entenderam. Adriane pensava consigo mesma: “mais uma missão cumprida!”
     Essas situações se repetiram por algum tempo e Adriane conseguia cada vez mais êxito, seja a curto ou longo prazo. Era incrível como um objeto carregado de símbolos e afeto poderia mudar o destino das coisas.
   Certo dia, Adriane estava no shopping e avistou um casal lésbico em discussão. Maria e Carla, já estavam juntas há 5 anos, mas Carla não sentia mais o mesmo pela companheira. Decidiu romper para evitar maiores danos futuros, contudo Maria não conseguia entender, já que a amava incondicionalmente e unilateralmente. Carla não queria mais delongas, saiu e deixou Maria em desespero.  Carla dirigiu-se para o estacionamento e Adriane foi atrás. Esperou Carla abrir o carro para entrar e deixou uma rosa branca, que significa recomeço, no capô. Carla avistou a flor, mas não se moveu em direção à ela, apenas foi embora.
    Adriane voltou para o shopping e encontrou Maria extremamente abalada, decidiu aproximar-se e tentar conversar com ela, para reverter a situação. Maria precisava de um ombro amigo e não se importou em ser ouvida por uma desconhecida. Adriane encorajou a moça em ir atrás da amada, mas no fundo Maria tinha consciência de que o seu amor não era mais recíproco. Antes de ir, Adriane entregou-lhe uma rosa vermelha, para que ela se renovasse e procurasse uma nova paixão.
     Dias depois, em um desses encontros casuais, as duas se esbarraram no cinema. Então, depois de muitas conversas, contato e encontros, Adriane sentiu reacender aquele sentimento que ela não mais conhecia, sendo correspondida por Maria. No fim, o destino encarregou-se de colocar as rosas nos seus devidos lugares, de entrelaçar o caminho de duas almas solitárias e perdidas.


domingo, 12 de outubro de 2014

[Parte 1] Rosas do Destino.


     Desde que perdeu sua namorada, brutalmente assassinada, Adriane nunca mais abriu lugar para o amor em sua vida. Vagava pelas ruas, sozinha, mirava os casais apaixonados e pensava que aquilo não aconteceria com ela novamente. Tornou-se uma pessoa reclusa, embora adorasse ver o romantismo e a felicidade alheios.
       Certo dia, em um de seus passeios solitários, avistou um casal brigando no centro do parque. Eles eram muito rudes um com o outro e estavam se machucando a cada minuto que passava. A menina então resolveu ir embora e deixou o namorado sentado no banco da praça. Naquele momento, Adriane sentiu que precisava fazer algo por aquele casal.  Tiraram-na sua amada tão cedo, assim ela não queria que os outros deixassem ir embora quem amavam, por motivos banais.
       Sentou-se ao lado do rapaz e perguntou-lhe:
        - Você ainda a ama?
      - Então você estava bisbilhotando a minha vida? – respondeu o rapaz, grosseiramente.
       - Apenas responda a minha pergunta, jovem – frisou Adriane.
     - Sim, a amo, mas ela não me entende, não me aceita como sou, não perdoa meus erros  – disse o rapaz, cabisbaixo.
       - Se a ama, o que está esperando? Vá atrás de sua amada!
       - Por que eu deveria? – perguntou-lhe pensativo.
      - Porque as horas passam rápido demais, rapaz. E os minutos estão se esgotando, enquanto você está aqui parado, ela deve estar chorando em um canto qualquer. Aproveite cada milésimo de segundo ao lado de quem ama e seja feliz enquanto é tempo.
      O rapaz, então, levantou-se e correu para uma loja que estava em frente à praça, comprou uma rosa esverdeada, que significa esperança e foi atrás de sua amada.  Ao alcançá-la, entregar-lhe a rosa e o pedido de desculpas, a namorada abraçou-o e os dois se beijaram ternamente. Adriane seguiu-o, observou o desfecho e sentiu uma emoção enorme ao presenciar a felicidade que ela sempre sonhara. A partir deste dia, decidiu reunir casais que estavam passando por momentos turbulentos. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Superficialidade.


Pessoas rasas,
perdem suas asas.
Pelo medo de voar,
permanecem no mesmo lugar.

Cheias de superficialidade,
abusam da comodidade.
Não sentem de verdade,
mentem, na realidade.

Contrariam a profundidade,
negam a personalidade.
Recusam mergulhos fundos,
vivem perdidas no mundo.

Lançadas na vida,
não obtêm feridas.
Enraizadas na sorte,
aguardam a própria morte.

Emoções quase inexistentes,
o vazio sempre latente,
a falta de coragem,
e o caminho à margem.

domingo, 24 de agosto de 2014

Interdependência vital.


    Somos interdependentes. Vivemos cobiçando a nossa independência, mas jamais teremos liberdade o suficiente, para sobrevivermos sozinhos. Participamos de um mesmo quebra-cabeça.
    Precisamos do outro, nos constituímos a partir de marcas/legados que alguém deixa em nós. Somos orientados para vida a partir das influências: primeiramente de nossos pais, posteriormente das escolas e por fim da sociedade como um todo.
    Às vezes deixamos a nossa individualidade se sobrepor e acabamos esquecendo que o próximo pode fazer parte de nosso ser. Basta permitirmos. 
    Cedo ou tarde, o destino nos coloca frente a situações, nas quais, ou deixamos o egoísmo de lado ou ele escorrerá por nossos dedos naturalmente. Vez ou outra, negamos o auxílio a quem necessita, contudo o mundo gira, e após a negação, seremos nós os necessitados.
     Elegemos a quem nós podemos fazer bem e quem podemos tratar mal, mas certo dia também somos elegidos. É um jogo mútuo, onde ora estamos em uma posição de passividade, ora estamos na posição de atividade. Agimos e reagimos, ação e reação, talvez seja essa a lei da vida

sábado, 16 de agosto de 2014

O sopro do recomeço.


       Marina andava cabisbaixa pela praça central de São Paulo, o dia não havia sido nada favorável para ela, aliás, há muito não o era. Decidiu sentar-se no banco onde a sombra repousava e deparou-se com um jardim cheio de flores: rosas, girassóis, orquídeas.
    Por alguns minutos conseguiu admirar a beleza natural. Então foi surpreendida por uma planta que era diferente de todas aquelas flores, era única e encontrava-se no meio, rodeada pelas outras. Era um dente-de-leão, intacto, protegido, o qual despertou em Marina o reflexo de sua personalidade. Uma jovem solitária, peculiar, que se destacava das pessoas por seu jeito distinto de ser. Às vezes não era aceita, ou quem sabe não era notada como gostaria, e por isso, criou uma barreira protetora em seu interior.
     Sem pensar, levada pela emoção, colheu-o. Colocou aquela pequena amostra de si mesma entre as mãos e mirou-o silenciosamente. Por um instante, quis deixar tudo o que era pra trás, queria se transformar, abraçar-se, beijar-se. Marina depositou cada sonho em uma parte do dente-de-leão. Por fim, assoprou-o. As flores foram caindo ao chão, levadas pelo vento, assim como a tristeza de Marina que naquele momento acabara de dissipar e dera lugar a esperança de se renovar.

sábado, 9 de agosto de 2014

[Parte 3] O portal.



       Sofia deparou-se com a imagem da mãe. De repente, um clarão pairou no quarto e como em um filme, a história dos pais de Sofia foi sendo mostrada. Sofia mirava-a quando pequena, debruçada em lágrimas. O tempo foi passando, até chegar aos 6 anos, no dia em que seus pais morreram. Sua mãe chegara tarde em casa, por conta do trabalho e encontrara o marido na cama com a amante. Renata, a mãe de Sofia, não discutiu com o esposo, apenas arrumou a sua mala e já ia saindo de casa, quando Raul atirou em suas costas. Renata caiu e o sangue escorreu pelo assoalho. 
       Depois disso, Raul atirou em suas têmporas. A amante, assustada com toda aquela cena, tocou no revólver e chorou em cima do corpo do amado, até a polícia chegar e prendê-la em um suposto flagrante.
       O sofrimento era estampado no rosto de Sofia e a dor também era marcada na forma da sombra. Renata nunca aceitou a perda da filha, queria leva-la para o seu mundo e por isso, atormentava-a.
       Em um momento de emoção, Sofia chegou perto da “mãe” e tentou toca-la, mas foi em vão. Por mais que a filha quisesse tê-la por perto pertenciam a mundos diferentes e Renata deveria regressar ao submundo.
       Fred sabia o que deveria ser feito. Invocou a alma de seu velho avô, para conseguir reabrir o portal e então levar Renata para o submundo. O avô de Fred ressurgiu e Renata, apesar de amar a filha, entendeu que ali não era mais o seu lugar. Ambos ultrapassaram o portal. A forma da Renata ainda mirou a filha, antes de desaparecer. Havia uma espécie de sorriso aliviado em seu rosto.
       Sofia aconchegou-se nos braços de Fred, chorando copiosamente. Horas depois adormeceu, anestesiando a dor.

sábado, 2 de agosto de 2014

[Parte 2] O portal.


       Chegando na universidade, Fred logo percebeu que havia algo errado com a amiga. Ao ser questionada, Sofia levou-o para um local afastado e contou tudo o que estava havendo. Fred ouviu atentamente e demonstrou uma reação natural. Surpresa, Sofia perguntou ao amigo se ele não estava espantado e assim, Fred decidiu revelar-se para ela. 
       O amigo contou que fazia parte de um grupo espírita e lidava com aquele tipo de situação frequentemente. Procurava ajudar as pessoas que eram atormentadas por seres do submundo. Abraçou Sofia e propôs-se a trazer paz novamente para a vida da amiga.
       Às 23:00h Fred chegou. Sofia estava apreensiva, não conseguia pegar no sono, olhava o relógio a cada minuto. Temia que o despertador apontasse 3:00h. Os dois permaneceram juntos o tempo todo.
       Na virada de 2:59h da madrugada, Fred começou a sentir uma presença estranha na casa. Sentiu calafrios, tremores e cerrou o cenho. Fred não conseguia ver nada, apenas sentia. Ao seu lado, Sofia mirava novamente a sombra, direcionava Fred para o lugar em que ela estava, mas o amigo não conseguia enxerga-la.
       Sofia começou a gritar ao mirar a sombra se aproximando dela. Fred, rapidamente, se interpôs entre a sombra e Sofia e pegou a Bíblia que estava dentro de sua mochila. Começou a proferir uma oração, ordenando que a sombra mostrasse quem era em sua forma humana. Como resposta, escutou um rugido ensurdecedor aliado a tremores e redemoinhos que o afastaram do caminho, jogando-o ao chão.
       Eram 3:50h, Sofia dava passos para trás, afastando-se do mal até o momento em que ficou contra a parede, sem saída. O portal estava ameaçando se abrir e a sombra empurrou Sofia para a entrada. Sofia estava com parte do seu corpo já dentro do portal. A jovem resistia o quanto podia, mobilizava todas as suas forças. Fred finalmente conseguia mirar a sombra. Levantou-se do chão e iniciou um ritual sagrado, enfraquecendo o poder do mal e fazendo com que a sombra permanecesse no mundo real. Por fim, Fred puxou Sofia para fora do portal, que então se fechou.
       Enfraquecida e presa no mundo dos homens, a sombra cedeu, mostrando a sua forma humana. Surpresa, Sofia não podia acreditar no que estava diante de seus olhos.

sábado, 26 de julho de 2014

[Parte 1] O portal.


      Eram 3 horas da manhã. Sofia despertara mais uma vez, como toda noite, no momento exato. Estremeceu, quis não abrir os olhos, mas sabia que ela estava lá: a sombra. Colocou o travesseiro sobre o rosto e cobriu-se. Dizia para si mesma: não posso abrir os olhos, não posso!
      Alimentada pelo medo de Sofia, a sombra se aproximara da jovem, emitia gritos infernais e falas demoníacas, atormentando-a. Pavorosa, Sofia não resistia e simplesmente a mirava.
Era uma sombra deformada com olhos famintos e acinzentados, boca escancarada sem dente algum, apenas com um vazio característico e dolorido, ansiando por Sofia.
      Sofia tentava “esquecer” que a sombra estava lá ao pé da sua cama. Tentava pegar no sono novamente, mas jamais conseguia. Com um esforço descomunal, apenas  cerrava os olhos até a sombra voltar para o submundo. Já eram 4:00h, quando o portal entre os dois mundos, finalmente se fechou.
      Há meses essa tortura se instalara naquele quarto onde Sofia morava. A jovem de 21 anos era sozinha na vida. Perdera os pais cedo, assassinados, mas nunca soubera realmente como acontecera o dia fatídico. Vivera em um orfanato até a maioridade.
Ia para a faculdade durante a manhã e trabalhava no período da tarde para se sustentar. A jovem só conversava com o seu amigo Fred, que a ajudava sempre que precisasse.
      Arrumou-se para ir à faculdade, mirou-se no espelho, viu as marcas das suas olheiras tão características e partiu. A jovem ficava refletindo sobre o que deveria fazer, sabia que a situação não poderia continuar daquela maneira. Pensou, repensou e viu que sozinha não resolveria o problema, então decidiu contar para Fred.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O giro da vida.


      Fernanda estava com a casa cheia naquele domingo ensolarado. Era aniversário de Renan, seu filho completava 5 anos. O menino estava brincando com os primos gêmeos Jéssica e Gustavo, dois anos mais velhos que ele.
      Mãe e filho levavam uma vida difícil. Fernanda era mãe solteira e sustentava-os, a partir do trabalho artesanal que fazia em casa para, posteriormente, vender.
Renan teve que se contentar com o pouco que a mãe podia lhe dar, desde cedo. Vez ou outra ganhava alguns brinquedos que seus primos deixavam de usar.
      A mãe olhava para aquelas crianças e ficava imaginando porque a realidade era tão desigual. Jéssica e Gustavo tinham pais ricos, ganhavam do bom e do melhor, mas ao olha-los a carência era perceptível em seus rostos. Já Fernanda, apesar da condição financeira precária, sabia que fazia o filho feliz e era isso o que mais importava.
Naquele mês, Fernanda havia vendido poucos artefatos, sendo que a remuneração deu pra pagar apenas as contas básicas. Não pudera comprar presente para Renan e sentia um torpor devido àquele fato.
      Ela decidiu então, passar a noite construindo um pião de madeira para presentear o filho. Utilizou da sua habilidade com as mãos e fê-lo.
      A mãe pegou o pião de madeira, aproximou-se das crianças e entregou-o ao filho que lhe retribuiu com um largo sorriso e um ‘eu te amo mamãe’. Fernanda sentou-se ao lado das crianças e observou a tristeza de seus sobrinhos, Jéssica e Gustavo.
      Observou Renan rodar o pião e por um momento, refletiu sobre a vida. Percebeu que todos tinham dificuldades, mas também tinham aspectos positivos. O grande impasse era aprender a ver a vida rodar, aonde sempre há momentos de alegria e outros de tristeza, intercalados. Percebeu que quando o pião parou de girar, haveria o desequilíbrio. E neste momento se questionou: “O que eu devo fazer quando a vida parar de girar?”
      Foi então que, Renan, recuperou o seu brinquedo, entregou-o à mãe dizendo: “Sua vez de rodar, mamãe!” Os olhos de Fernanda encheram-se de lágrimas e assim, ela compreendeu que sempre há algo ou alguém que nos motive a encontrar um novo caminho, uma nova possibilidade de recomeçar.

sábado, 12 de julho de 2014

A arte de viver.


     Afinal, quanto tempo nós temos? Segundos? Minutos? Horas? Dias? Meses? Anos? Indecifrável, indefinível. A vida é um tiro no escuro, uma queda livre, a qual, não sabemos quando irá acabar.
     Como entender o porquê que algo acontece no tempo “errado“? Como entender os acontecimentos que não se dão no tempo que ansiamos? Uns acreditam em destino, alguns em propósito e outros em algo divino. Dizem que depois, tudo se é explicado, dizem que no futuro somos capazes de compreender, mas quem garante que teremos futuro? A verdade é que só temos o agora.
     Então por que não amarmos, não fazermos, não valorizarmos o que se tem hoje? Por que estamos sempre projetando a nossa vida em um tempo incerto?
     O ser humano se acha mesmo dono da razão, dono do seu destino, mas não percebe que a sua vida sempre está por um fio e que isso é incontrolável.
     Se partirmos dessa vida, sem viver, de que terá valido?
     Então, vamos aproveitar o que realmente temos no momento e deixar de lado o que queríamos ter tido ou o que ainda queremos ter. Faça seu hoje ser da melhor maneira possível, busque o que te deixa feliz. Não deixe que o seu presente se baseie em um possível arrependimento futuro.


sábado, 5 de julho de 2014

Impulso corajoso.


   Veja as suas cicatrizes, menina! Como pode suportá-las? Como pode deixa-las sangrar novamente?
   Olhe-se no espelho e me diga o que vês! Não consegue ver nada, certo? Tola! Ainda fico me perguntando porquê você insiste nesse masoquismo patético.
   Não há mais opções, é o fim. Seja mulher e apenas aceite! Aceite o que a vida ainda pode lhe oferecer.
   Pare, pense, há muito o que se viver. Por que ainda insistir em alguém que nunca será seu? Não, isso não é amor. Pode ser tudo, menos amor. Amor que é amor, não traz sofrimento assim, não te leva ao fundo do poço.
   Coragem minha garota, coragem! Sei que essa força está aí dentro, em algum lugar...
Você não merece passar por tamanha dor, não merece dormir com o travesseiro molhado todos os dias, não merece negar-se sorrisos.
   Saia do comodismo, deixe-o para trás! Somente faça, aja, liberte-se!




sábado, 28 de junho de 2014

Bucólico.


      Deitou-se na grama verde daquele antigo campinho de futebol, como fizera em toda a sua infância. Lamentou ter crescido, lamentou a perda daquela felicidade simples de criança.
      Resolveu tirar o terno, após o dia cansativo de trabalho. Virou-se e sentiu as folhas em contato com seu peito nu. Lembrou-se de como a natureza era bondosa com o homem. Lembrou-se o quão gostoso era apreciar os pequenos momentos da vida.
      Por um momento, esqueceu-se dos problemas, daquele cotidiano agitado que o deixava tão estupefato. Decidiu que sempre voltaria ali quando quisesse abandonar as suas obrigações diárias e sentir-se livre por alguns instantes.
      Mirou o céu nublado e começou a perceber as formas nas nuvens, recuperando parte de sua essência. De repente, flagrou um anjo, por entre aquelas formas brancas. Esfregou os olhos com as costas das mãos pensando ser um sonho, mas se deu conta de que a realidade poderia ser bem melhor do que ele imaginava.
      Fez daquele momento único e transformador.

domingo, 22 de junho de 2014

Esconderijo interno.


      Silêncio ensurdecedor, tortura interna. Buscando respostas em seu self, discutindo suas próprias mazelas. Ninguém sabe o que se passa com aquela garota. Garota para alguns, mulher para si mesma. Cresceu antes do tempo.
      A vida tem sido generosa com ela. Poucos eventos exteriores fazem-na ter motivos para sofrer de verdade. Contudo, quando volta-se para o seu lado interno, a história muda. Consegue se entender e talvez tal entendimento não a favoreça. Talvez conhecer-se demais, seja uma progressiva fonte de sofrimento. 
      Há partes escondidas, que não devem ou podem vir à tona. Há algo que é peculiar e somente dela, que está oculto e que precisa permanecer naquele lugar, protegido. Ela não quer convocar o monstro que existe em seu eu. Quer mantê-lo sob seu controle, mesmo que isso seja cômodo e doentio. Não seria justo convocar algo com que ela não saiba lidar. Deixe-a com seus pensamentos, deixe-a com a sua máscara, deixe-a confortável, em seu esconderijo.


sábado, 14 de junho de 2014

O dilema da traição.

    

     
    Traição é um tema bastante complicado e ambíguo, sob o meu ponto de vista. Desde que comecei a ter relacionamentos amorosos, mudei inúmeras vezes meu conceito e opinião sobre.
     No início dizia que não perdoaria de forma alguma e que quem ama não trai. Só que as coisas não são tão simples assim na prática. É preciso analisar a situação, as causas e tudo o que circunda o motivo da traição. Acredito que a "culpa" não é somente da pessoa que traiu, mas sim, de ambos, afinal, o casal compartilha tudo juntos. O relacionamento refere-se aos dois e toda ação tem uma reação.
     Hoje em dia, acredito que não é porque a pessoa te traiu, que ela não te ame. É relativo. Nós, seres humanos, somos muito fracos. As vezes nos sentimos atraídos por um sorriso, um olhar, ou qualquer traço simplista, que nos cause encantamento. Em pleno século XXI, arrisco dizer que as pessoas são muito imediatistas e impulsivas. E esse é um fator que permite a maior possibilidade para que a traição ocorra.
     O fato é, inevitavelmente, estando solteiro ou em um relacionamento, você vai se sentir atraído por alguém. Agora o que devemos considerar é se a traição fica só no mundo das ideias ou se a pessoa é capaz de executa-la.
     Ao meu ver, não existe "eu estou apaixonado e não tenho mais olhos pra ninguém", pois se passar alguém com uma beleza que te chama a atenção, você vai perceber.
Então, não trair, implica em não ceder aos seus impulsos, em pensar em quem se ama antes de agir.
     Mas ainda assim considero a traição, baseada na nossa cultura, algo extremamente difícil de aceitar, perdoar e que deixa uma marca indelével ao ponto de o relacionamento poder nunca mais ser o mesmo. Querendo ou não, fazemos parte de uma sociedade monogâmica que exige a fidelidade como essencial.
     O curioso é pensar que isso não se aplica em outras culturas. E aí vem a minha indagação: Como seria o nosso pensamento se no Brasil fosse permitida a poligamia?
     Existem tantos tipos de amor. Será que podemos amar duas pessoas ao mesmo tempo, considerando estes diferentes tipos? Raramente, você encontrará um parceiro (a) que te agrade em todos os sentidos. E se você encontrar um quesito interessante em outra pessoa e passar a ama-la também por isso? Você, necessariamente, deixará de amar a primeira, que tem tantos quesitos agradáveis, só porque encontrou uma segunda?
     No fim, tudo depende de fatores sócio-culturais, os quais são inseridos em nós.


sábado, 7 de junho de 2014

A busca pela liberdade.


        O gelo tilintava no copo com whisky. Ela já estava na terceira dose e sentia seu corpo anestesiado. O cigarro companheiro diário, sempre na outra mão. A história se repetia. A mulher, metida a pseudo-escritora, levava o copo à boca inúmeras vezes, até despejar o seu torpor em linhas tênues e adormecer toda a sua dor.
        Há muito tempo, perguntava a si mesma o que ela era, se ainda haveria esperança de futuro ou se era melhor parar naquele instante. Não suportava mais remediar o sofrimento dilacerante com álcool. Teria que encontrar outra forma.
       Decidiu prevenir. Abriu a gaveta da escrivaninha e ficou a mirar por alguns segundos o revólver comprado na semana anterior. Nunca teve coragem o suficiente para toca-lo depois do dia da compra, no entanto, naquela hora era ideal.
Escrevia e chorava copiosamente, enquanto segurava o revólver com a outra mão. Seus olhos estavam vermelhos assim como sangue. Apontava a arma nas têmporas e simulava a morte. Era covarde, não conseguiria puxar o gatilho. 
       Colocou o copo sobre a mesa, abraçou as pernas e colocou a cabeça entre os joelhos. Olhou pela janela e se deparou com uma noite incrivelmente linda, em um céu tom cinza iluminado por uma lua cheia e brilhante. 
       Levantou-se e foi a caminho da sacada. Sentiu o vento cortar seu rosto e teve a certeza de que aquele era o momento rompante. Impetuosa, jogou-se do quarto andar. Finalmente sentiu a liberdade jamais encontrada em toda a sua vida.

sábado, 31 de maio de 2014

Ressignificando a aliança.


     Depois de muita relutância, resolvi me expressar sobre um assunto polêmico. Antes de mais nada, queria deixar claro que não estou considerando o significado religioso ou espiritual deste tema.
     A aliança surgiu no Egito e tinha como simbologia a cumplicidade entre os amantes, bem como o "infinito amor". A questão é: Qual é o valor real de uma aliança?
     Assim como o amor, hoje, o sentido das alianças está banalizado. Parece que a maioria dos casais pensam ser extremamente necessário o uso da aliança desde o início, mesmo que não haja um sentimento profundo ainda. E então, muitas vezes, o namoro acaba, durando pouquíssimo tempo e cada um faz o que quer com a tal aliança: jogam no lixo, devolvem ao outro ou até mesmo, oferecem-na ao próximo parceiro (a). Sem contar, as inúmeras brigas que a "falta" da aliança pode causar. Se você for tira-la por alguns segundos e o seu parceiro (a) te ver sem, já é um motivo de desconfiança.
     Atualmente, penso que a aliança está tendo o objetivo maior de "segurar", de demonstrar "posse", do que qualquer outro objetivo. O significado de amor verdadeiro, poucos conhecem, com aliança ou sem ela.
     Portanto, ao meu ver, a aliança não é assim tão indispensável em um namoro, se nele houver companheirismo, confiança, paixão e amor. O importante é o que se sente, sabendo que é recíproco; é a emoção em apenas estar ao lado da pessoa que se gosta e não a simbologia, em si, de um objeto.


sábado, 24 de maio de 2014

Repentinamente amiga.


     Chego resguardada, em um local temido. Rompendo com o meu medo e encarando uma nova etapa da vida. Mesmo assim, sigo retraída, em um mundo criado só pra mim.
     As pessoas tentam se aproximar e por mais que eu saiba a necessidade de criar laços para a minha manutenção naquele lugar, sigo isolada, com uma barreira de proteção.
     Sou diferente. Nunca quis ser o centro das atenções, sempre procurando ir contra a corrente, sendo como um vidro transparente. Não me importo em ser invisível e até preferia assim, contudo, alguém chegou e descobriu-me.
     Descobriu meu segredo e me senti desarmada. Não sabia a proporção que aquela descoberta poderia tomar, afinal só a conhecia há uma semana. Por mais que eu me escondesse, ela descobrira.
     Não havia saída, a não ser dar um voto de confiança, receoso, é claro. E a partir desse risco eu tive um grande presente. A partir de uma estrutura um tanto quanto frágil, edificou-se uma amizade forte.
     Existem pessoas, que não permanecem na nossa vida pra sempre, mas permanecem tempo o suficiente para muda-la e engrandecê-la. 

sábado, 17 de maio de 2014

Carcaça.


    Contempla a solidão em um quarto de hotel vazio. Caminha até o espelho e depara-se com o irreconhecível. Uma imagem desfigurada, calcada em carcaças, migalhas de quem um dia já foi valorizada.
    Abre a janela, mira a distância até o solo. Procura algum objeto, com o qual possa se auto-punir, mas assume a covardia. Somente consegue chegar até o banheiro, encostar a cabeça na parede e chorar copiosamente. Lágrimas doídas, vida ultrapassada.
    Enlouqueceria, se continuasse mais um segundo ali. Decidiu partir, sem rumo, sem ter pra onde, aceitando um papel de mera desconhecida. Desconhecida de si mesma. 

sábado, 10 de maio de 2014

Prazer Mortal.


      Como um pássaro de garras afiadas pousou sobre sua presa: cravando as unhas, rasgando o peito, arrancando o coração.
      Calor entre os corpos, movimentos selvagens, ânimos à flor da pele: prazer mortal.
      Gemidos, arranhões, mordidas, autodestruição. Tesão, êxtase, satisfação, gozo e por fim: a morte.

sábado, 3 de maio de 2014

Os limites da criatividade.


       A criatividade é a grande sacada do mundo da publicidade e propaganda atual.  Anúncios “mornos” ou comuns demais passam a não fazer mais o efeito esperado há muito tempo nos consumidores.
       Não vou entrar na questão de que somos manipulados, consumidores passivos e compulsivos, porque já é bastante clichê. Mas o que quero abordar aqui é: até que ponto essa criatividade anunciada pode ser positiva e negativa em nossa vida?
       Muitas vezes, compramos um produto não porque precisamos ou queremos, mas pela forma como ele nos é apresentado. É aquilo que nos encanta e, de maneira errônea, somos ludibriados. Como se voltássemos a deixar-nos reger pelos nossos instintos e assim, saciar nosso impulso/vontade de ter aquilo que é “bonito” aos olhos.  Às vezes podemos adquirir o produto apenas a troco de reconhecimento, como se por possuirmos aquela mercadoria chamativa possamos ter um status maior que os demais.
      Mas em contrapartida, como seria se essa criatividade não fosse explorada? Porque ao mesmo tempo em que ela é utilizada para nos incentivar a consumir, é utilizada também para beneficiar as empresas estabelecendo uma ordem, nesse caso ou até mesmo em pesquisas peculiares que podem desencadear descobertas inovadoras para a humanidade, em outros casos.
     Então, a criatividade fez-se necessária ao longo do tempo. É claro, devemos colocar numa balança os prós e contras, mas acredito que hoje, tenho uma visão mais positiva do que negativa, acerca deste tema. A criatividade surgiu no momento certo, quando tinha que surgir, e sim, produziu progressos.
     Contudo, ainda é extremamente importante que sejamos conscientes e flexíveis ao considerar algo criativo. Não podemos nos deixar enganar somente pelo que os olhos veem. Acredito que a criatividade está bem além disso. E no mesmo contexto, podemos ser criativos ao escolhermos o que comprar, o que consumir, ao analisar uma propaganda e etc.
     Portanto, celebremos a criatividade de maneira saudável, afinal, todos nós precisamos dela.

sábado, 26 de abril de 2014

A insuficiência do homem.


     O sofrimento é presente em grande parte da vida do ser humano e quiçá na maior parte desta. Sofremos demais e acredito que isto se dá pela maneira como lidamos com esse sentimento. Para nós, seres humanos, o sofrimento sempre está acima da felicidade. Mesmo que tenhamos inúmeros momentos de alegria, lembraremos, até o fim de nossas vidas, daqueles que nos causaram dor.
     A visão do homem, neste contexto, é muito limitada. Ainda me pergunto como podemos ser chamados de “Homo Sapiens”, se não sabemos nem lidar com as nossas perdas, ausências e afins. A meu ver, o sofrimento do homem em larga escala relaciona-se com duas características essenciais: a frustração e a impotência.
   A frustração devido ao fato de que as coisas nunca acontecerão da maneira como queremos e os nossos desejos jamais serão realizados em seu todo. Sempre haverá algo fora do lugar, que vai contra a forma como imaginamos/fantasiamos as situações. E conseguir compreender tal frustração é uma tarefa complicadíssima, tendo em vista o ego inflado do homem contemporâneo que acredita ser capaz de mover o mundo.
     Por conseguinte, surge a impotência. Acredito que mais dia, menos dia, demore o tempo que for, a “verdade” virá à tona na vida de cada um e assim entenderemos o porquê de ter dado errado, de termos perdido a batalha naquele instante passado. O difícil é reconhecer que o homem não é capaz de entender de imediato o porquê dos acontecimentos de sua própria vida.
   Bom, refletindo desta maneira, concluo que somos menores do que imaginamos, nesse imenso espaço. Insignificantes, atrasados, restritos e consequentemente sofredores.
   Por mais avanços tecnológicos e científicos que temos, não somos capazes de reger a nossa própria vida por completa. Porque há pontos, que mesmo que nós ansiemos, escolhemos e lutemos, ainda assim não será o suficiente. Porque, com certeza, há algo muito além de nós, algo que desconhecemos, seja o destino, deuses, extraterrestres ou a denominação que você preferir. Mas todos esses nomes se resumem a uma só palavra: Insuficiência.
    Talvez quando percebermos/reconhecermos o quão insuficiente somos, o sofrimento possa cessar ou ao menos se reduzir, em nossas vidas.

sábado, 19 de abril de 2014

Hipocrisia ou contradição?


      Durante muito tempo fui controlada por minhas próprias regras e era bastante restrita. Não conseguia me abrir a nenhuma nova experiência que pudesse infringir as minhas leis morais. E quando, raramente, os tabus eram quebrados, praticava a autopunição. 
   Contudo, os dias foram se passando e comecei a considerar a possibilidade de abrir algumas brechas nessas regras. Passei a ouvir os conselhos dos meus amigos e daqueles que me amam, a me expressar e discutir sobre assuntos, então foi desta maneira que iniciei o meu aprendizado.
    O ponto é que hoje as regras já não fazem mais tanto sentido. No entanto, há um sentimento ambíguo que floresce em mim em relação a esse assunto. Por um lado foi bom eu ter me desvencilhado um pouco das leis, para conhecer e desbravar o mundo, aproveitando-o, mas por outro, não foi produtivo, pois tropecei nas minhas palavras e as contradisse.
   Hoje, sou o tipo de pessoa que consegue aconselhar alguém dizendo o que pensa e o que, na maioria das vezes, costuma ajudar um amigo a seguir por um bom caminho, porém, quando é pra colocar as coisas em prática na minha vida, a história muda de figura. Sinto que não tenho força o suficiente pra praticar os meus ideais e acho que sou incapaz.
  Mas, tendo como referência tal definição, talvez eu não seja hipócrita, pois, como a hipocrisia é uma falsidade/fingimento, àqueles que praticam-na o fazem propositalmente e lhes digo que no meu caso não é assim. Não há intenção, apenas acontece e está fora do meu controle, na maioria das ocasiões.
   Acredito que eu seja uma contradição, que eu não honre com a minha palavra e que eu não consiga relaciona-la com a ação. A verdade é que sigo procurando uma saída plausível para melhorar nisso.
   E sob outro ponto de vista, considerando que o homem é mutável (e eu mudo de segundo em segundo), onde a hipocrisia poderia entrar aqui? Quer dizer, se você muda de opinião ao longo da sua história e começa a praticar ações que outrora não praticava, você pode ser tachado como hipócrita?
    É uma questão que parei pra pensar dia desses e ainda não cheguei a uma conclusão...

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Mão Dupla.


     Pensar demais nos leva a tantas dúvidas. Este é um ponto que preciso solucionar, pois acabo pensando demais e agindo de menos. Pensar não é o bastante. A vida acabou demonstrando para mim que as ações falam por si e que não adianta você pensar/sentir algo, se age de forma diferente, porque sempre irão considerar seus atos (na maioria, falhos) como forma de julgamento.  
     O que quero dizer é que nesse lance de pensar demais, acabo encontrando duas vias para cada tema que é me proporcionado. Penso em um argumento e penso no contra-argumento também. Não sei se considero essa estratégia relevante ou não, mas é algo que me cerceia. E, considerando o exposto, fico muito confusa em algumas questões, tanto que penso por horas a fio sobre.
     Pois bem, hoje expressarei minha opinião (de mão dupla) sobre rótulos e estereótipos. São padrões e isto é claro. Reducionistas, limitados e que não alcançam de forma alguma a essência do homem, tal como ela é. Porém, acredito que necessitamos de rótulos.
Particularmente, fico a refletir como seria o mundo se nada fosse padronizado. É certo que seria menos excludente e preconceituoso, mas será quanto tempo demoraríamos para decifrar uma pessoa? Quanto tempo ficaríamos a tentar entende-la? Uma vida inteira, quem sabe.
    Querendo ou não, por mais insuficiente que seja o ser humano, ainda assim somos complexos. Se já somos complexos e quiçá ininteligíveis quando se tem estereótipos, imagina se não os tivéssemos?
    O que quero explicitar aqui é: E se não tivéssemos parâmetro nenhum?
    Sei que não podemos ficar comparando tudo e todos, porque é uma visão extremamente reducionista, contudo, como saberíamos/definiríamos se o outro está triste ou feliz? Como o ajudaríamos?
    Bom, deixo as respostas para estas perguntas, em aberto, pois assim como eu, espero que vocês também possam refletir sobre. Como já li, certa vez, “não há nada mais gratificante, do que colocar uma semente de dúvida que brota na mente de alguém”. E com toda a certeza dúvida é o início de tudo. 

domingo, 6 de abril de 2014

Suicídio Masoquista.


Destroços,
estou no fundo do poço.
Retiraram-me até os ossos,
sinto que nada posso.

Suicídio,
já fora repúdio.
Mas agora é preciso,
correr esse risco.

Anestesiada,
inteiramente abalada,
Sem qualquer reação,
que possa me trazer a salvação.

Por muito tempo me perdi,
mas escolhi estar aqui.
Contemplando o masoquismo,
em direção ao abismo.

Dor que não se entende,
apenas se sente.
Angústia de ser assim,
mas como se livrar de mim?

É que aprecio o sofrimento,
gosto desse tormento.
Quem sabe um dia possa acabar,
e à sanidade poderei voltar.

sábado, 29 de março de 2014

Corda Bamba.


          Segundo Aristóteles, o homem deveria encontrar o seu equilíbrio a fim de almejar a felicidade e por isso ele falou sobre o “meio-termo de ouro”. Ah, meu grande filósofo, como é difícil alcançar esta fórmula do meio termo.
          Criei o blog com o nome Dose Certa, porque acredito que devemos procurar a medida certa para cada situação em nossa vida. Além disso, ressaltei o slogan “Consegui meu equilíbrio, cortejando a insanidade”, porque através dos meus momentos mais loucos é que alcancei parte do meu equilíbrio. Mas estou longe de ser equilibrada de forma completa.
          Há tantas pendências, que ora eu pendo mais para um lado, ora para o outro. Devo reconhecer que em determinadas circunstâncias consegui a proeza do meio-termo, mas tive que exigir muito de mim mesma. Em contrapartida, considerando todas as demais circunstâncias, penso que me defino como 8 ou 80.
          Talvez eu seja mesmo extremista e viva nas bordas da estrada, ora em uma borda, ora em outra, em alternância. É como se eu me sentisse na corda bamba, buscando o equilíbrio, mas entre um passo e outro, ou volto para o local de origem ou prossigo até o fim.

sábado, 22 de março de 2014

[Final] Luna


    Regressando à floresta, ao entardecer, Luna esperava-o furiosa. Evitou olha-lo, quando chegou. Ficou de costas para Anderson, enquanto exigia em tom agressivo saber o porquê daquela atitude. O jovem explicou tudo, no entanto, quando disse que voltaria a sua casa outras vezes, sentiu uma onda enorme de ira vinda de Luna.
    Luna virou-se para encara-lo, com os olhos fumegantes de uma cor vermelha intensa, contrastando com o seu cabelo. Levantou as mãos e Anderson pode ver símbolos mágicos tatuados em seu antebraço. Luna, com toda a sua raiva, lançou uma magia sobre Anderson. Agora tudo fazia sentido para ele.
    No meio tempo, antes que a magia o atingisse, o jovem começou a refletir sobre as evidências da identidade não revelada de Luna: a vivência na floresta, a falta de informações sobre sua família, a despedida e a culpa, a proibição de sua saída... “Como não pude notar antes?” - ele se perguntava. Anderson estava cego de amor e não percebera o que se encontrava diante de seus olhos.
    Anderson tentou falar alguma coisa, clamar por piedade, mas não houve tempo o suficiente. O garoto transformou-se em um lobo branco de olhos vermelhos que soltou um longo uivo de sofrimento, imediatamente. Seria prisioneiro, para sempre, de Luna. Seria dela e viveria somente na floresta.
    Anderson não sabia que lobos choravam até sentir uma lágrima cair de seu olho. Repentinamente, olhou a lua que refletia no fundo de sua alma. Agora, ela seria sua única companheira, a qual o faria lembrar que jamais perdera a sua essência, seja como lobo ou como homem.