terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Desespera(dor)


         Nega-me o seu amor, nega-me a sua paixão e deixe-me acreditar que tudo o que vivemos foi em vão. Leva-me deste abismo, leva-me desta desunião, provocada por sua inútil acomodação. Siga-te enjaulada, apavorada e lembre-se de que logo te deixarei, desolada.             
         Continue com este jogo: chama-me a atenção, em troca do meu perdão. Não faça, não aja, perca-se em seus próprios medos. Já não há mais mágoas que caibam naquela velha gaveta onde eram guardadas, já não há mais lágrimas salgadas. Secaram, foram-se. Estou exausta, anestesiada, sem saber o que sentir ou fazer. Mas não, não serei como você quer, não me acostumarei a essa dor diária e muito menos viverei a esperar que um dia o meu sonho possa se concretizar. 
        Leva-me solidão, para um local seguro. Leva-me dessa escuridão de horrores. Leva-me, que já não suporto mais sentir tais dissabores. Frustra-me com o fim, mas deixe algo bom renascer em mim. Ainda há tempo, ainda posso cruzar com outros olhares. Um dia, talvez. Traga-me a paz e livra-me deste desespero.  

sábado, 28 de dezembro de 2013

[Parte 1] O enigma dos seringueiros.


    O sol queimava a pele do grupo de seringueiros. Chegaram à floresta, armaram o acampamento, o terceiro em menos de 2 meses. O trabalho seria pesado no dia seguinte. O calor arrancava gotas de suor do corpo dos trabalhadores. Eram três.
    A empresa os contratara há pouco tempo, devido ao desaparecimento de quatro funcionários enviados àquele local. O mistério dos seringueiros ainda não tinha se resolvido.
    Alan decidiu deitar-se na barraca, pois o cansaço sugara todas as suas energias. Antes mesmo de Fernando e Ivan anunciarem que iriam ao lago, Alan já havia pegado no sono.
Fernando fora na frente por ser mais experiente com o trajeto feito na Floresta. Ivan, todo desajeitado, seguia aos trancos e barrancos atrás dele. Os dois amigos eram bastante diferentes, não só pela desigualdade de idades, como também pela história de vida. Enquanto Fernando já havia sido proprietário de uma empresa, Ivan estava apenas iniciando sua caminhada no trabalho. 
    Fernando, finalmente, chegou à beira do lago, tomou um pouco d'água em suas mãos e refrescou seu rosto. Ivan, brincalhão como sempre foi, viu-o abaixado e empurrou-o lago adentro. Ivan soltava gargalhadas estrondosas de toda aquela situação. Fernando estava a 5 metros das rochas que rodeavam o lago, começou a nadar com rapidez, quando de repente fora sugado por algo que o levara para o fundo.
     Ivan parou de rir no mesmo instante. Jogou-se na água, à procura do amigo. Mas não havia nenhum vestígio de sangue ou do corpo. Assustado, Ivan voltou à superfície e subiu nas rochas. Repentinamente, o jovem ouviu um canto suave que o tranquilizava por dentro, mas ao mesmo tempo, despertava um desejo indescritível. Ivan virou-se para trás a fim de encontrar o lugar de onde vinha aquela voz fascinante. Ao retornar o olhar para sua frente, deparou-se com uma bela sereia.
     A sereia tinha a pele incrivelmente branca e sedosa, possuía duas conchas que protegiam seus seios e o cabelo louro, grande e encaracolado. Sua beleza estonteante ofuscava os olhos de Ivan. Ele sentia palpitações, seu corpo tinha os batimentos cardíacos acelerados, estava boquiaberto. Encontrava-se enfeitiçado, deslumbrado, louco de amores com tamanha perfeição. A harmonia do canto com a beleza da sereia fê-lo andar em direção a seu encontro. A sereia sorria e continuava a seduzi-lo. 
     Ambos estavam com a água até a cintura, um de frente para o outro. A sereia Serena, então, passou-lhe a mão no rosto e ergueu a sua cauda azulada, revelando a sua metade peixe. Fernando estava tão hipnotizado que nem percebera a cauda de Serena. Seguia pensando que era uma humana. Beijou-lhe os lábios, enquanto ela o levava para as profundezas do lago, junto ao seu amigo Fernando.

sábado, 14 de dezembro de 2013

O encantamento da mãe natureza.


     Estava anoitecendo. A lua começava a despontar no céu sem estrelas, refletindo na face da garota. A noite era agradável para Susi. Sentia-se pertencente àquele cenário.
     Admirando o efeito lunar, a menina sentou-se no banco central do Jardim Botânico. Palavras eram rabiscadas naquele caderno que carregava quando algo adentrava teu interior. Após algumas tentativas de escrever algo coeso, resolveu andar pelo local, onde se encontrava na companhia, apenas, do guarda noturno.  
     Jorge já se acostumara a encontrar Susi em noites esporádicas. Sempre que a via chegar, entregava-lhe uma lanterna e um kit de sobrevivência, caso se perdesse no meio das inúmeras árvores.
     Susi caminhava por entre as plantas, sentindo a essência de cada uma. Sem sombra de dúvidas, as que mais lhe despertavam curiosidade, eram as insetívoras.  Ficava observando-as por horas a fio. Naquele momento, presenciaria um espetáculo da natureza. Um inseto pousou sobre a folha de uma insetívora que por fim, se fechou, esmagando-o. Vidrada, a garota apresentava uma expressão estonteante.
     Depois do ocorrido, Susi atentou-se para o barulho do pequeno lago que estava ali perto. Ligou a lanterna e seguiu até lá.  Iluminou a água e visualizou ovos eclodirem, originando vários girinos que nadavam para longe. 
     Mais tarde, ouviu sapos coaxarem, olhou para o lado e se deparou com um casal de anfíbios em terra úmida no momento de reprodução. Sua face se resplandecia e o frenesi era enorme. Permaneceu junto ao lago, por um tempo indeterminado, maravilhada.
     Nas horas seguintes, a garota voltou ao teu percurso. Quando estava andando por algumas plantas, sentiu espinhos arranharem tua perna. Agachou-se para ver o ferimento, fez um curativo e ao levantar  constatou que  o dia estava quase amanhecendo.
     Nesse instante, a “flor das 6h” começou a se abrir mostrando suas pétalas rosadas. Exalava um cheiro adocicado que convidava às abelhas a pousarem e sugarem o néctar.
     Ao avistar o sol nascente, Susi sabia que era hora de partir.
     Após este longo período em contato com a natureza, as palavras antes rascunhadas no caderno, começaram a ser ordenadas. Susi, dessa vez, compreendera a pequenez do ser humano e inferira o quão grandioso é o mundo natural, além do que os homens podem enxergar.
     E este foi apenas um dos relatos, para o grande livro que viria 10 anos depois: O encantamento da mãe natureza.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Apenas perguntas.

    
     Entre uma das indagações que mais me intriga está o mistério das palavras. Às vezes reflito sobre a situação que esteve por trás da palavra quando a mesma foi criada. Por que o homem atribuiu um significado àquela palavra? Por que não poderia ser diferente?
    Por que o céu é personificado como o lugar azul cheio de nuvens que se encontra acima de nós? Por que entendemos o sol como o grande astro amarelo? Por que visualizamos a folha de uma árvore como algo verde que dependemos para a sobrevivência?
    E então, é esta magia das palavras que me envolve.  Fico pensando como seria se não houvesse uma padronização para que todos nós entendêssemos os objetos do mundo com o "mesmo" significado (desconsiderando a parte subjetiva). Como seria se houvesse a livre interpretação em relação a cada objeto que nos é apresentado, sem que soubéssemos qual o seu nome ou o que ele significa?
    Como conseguimos organizar o nosso espaço tão grandioso como é, a partir da linguagem? Como o nosso cérebro é capaz de associar o símbolo com a linguagem? Isso seria possível, sem a aprendizagem desde pequenos?
    Será que somos o que somos, só por que os outros nos dizem, desde o nascimento? Será que somos independentes, que temos ideias à parte? Ou será que somos e nos formamos, apenas a partir do que ouvimos dos seres alheios? 
    Perguntas, que talvez jamais encontrarei a resposta, contudo que instigam o meu ser à buscá-las. Infindáveis perguntas, infinita linguagem. As palavras parecem nunca ter fim. Sempre há algo novo para se aprender, se descobrir. Neologismos e mais neologismos ainda estão por vir.