sábado, 28 de setembro de 2013

[Parte 2] Entre céu e Terra.


- Renata

      Renata, era a mãe de Márcia e sempre cuidara da filha muito bem. Era do tipo “mãe coruja”. Quando aconteceu o momento de possessão pela primeira vez, sentiu-se desolada. Mas lutou com unhas e dentes para salvar a alma da filha. Pediu auxílio aos padres da região e após muitas orações, o exorcismo fora feito.
      Naquele dia, ao sair do supermercado, chegou a tempo de ver sua filha no carro descontrolado. Ao visualizar a diferença na postura de Márcia, logo percebeu o que estava acontecendo.
      Largou as compras no chão e entrou no táxi mais próximo. Seguiu o carro desgovernado de longe e o viu parar.
      Decidiu ligar para o Padre Sérgio, a fim de recrutar os antigos exorcistas.
      Enquanto esperava a ajuda chegar, observava sua verdadeira filha em um “diálogo” com a entidade. Entendeu que parte da alma de Márcia, ainda estava naquele corpo. Soltou um suspiro de alívio e suas esperanças se renovaram.
       Renata iniciou uma prece, a fim de pedir que sua filha fosse protegida. Então, raios passaram a cair no barranco que dava na floresta, redemoinhos  se formaram e uma chuva torrencial desabou.
       Amedrontada, a mãe de Márcia sentiu uma emoção estranha e ouviu uma voz desconhecida do alto que dizia: “Afaste-a do precipício. O espírito deseja a sua morte para tê-la nas profundezas.”
        Extasiada, Renata não sabia se acreditava no que lhe fora dito, mas sentia naquelas poucas palavras, um grande conforto.

sábado, 21 de setembro de 2013

[Parte 1] Entre céu e Terra.


- Márcia

      Márcia estava no banco do passageiro, esperando sua mãe voltar do supermercado, quando ouviu os primeiros indícios de que o seu pesadelo iria voltar. As luzes começaram a se apagar, o vidro do carro subia e descia incontrolavelmente. A garota tentava abrir a porta, mas ela permanecia trancada.
      O desespero tomava conta de seu rosto, seus olhos derramavam lágrimas à espera do arrebate. Repentinamente, um homem alto surgiu no estacionamento e seguiu na direção da menina. Seus olhos eram inexpressíveis,  porém, a ira era tamanha, que podia-se ver o seu corpo em chamas. O desconhecido parou em frente ao carro, colocou as mãos no capô e mirou fixamente para Márcia.
      A garota, se defendia , cerrando os olhos e tentando não abri-los. Contudo, foi em vão. A força daquela entidade maligna, a qual usava o corpo de um humano, fê-la  se remoer de dor, até que seus olhos abrissem. E então, o espírito passou a habitar mais uma vez o ser de Márcia.
      Seus olhos perderam o brilho e cederam lugar à cor negra. Seu corpo era contorcido e invadido pela entidade. Seu vestido branco fora rasgado, sua mente deturpada.
      No passado, Márcia fora brutalmente possuída pela entidade, duas vezes. Uma na infância quando tinha 9 anos e a outra aos 15. Após a última possessão, a garota pensava que sua alma estava livre do mal eterno, porém, o espírito era, agora, o seu dominador novamente.
      A entidade coordenava seus movimentos e seus pensamentos. Seu comportamento era visivelmente anormal e incontido. 
     Comandada pelo espírito, Márcia pegou a chave a do carro, ligou-o e dirigiu de maneira desenfreada pela rodovia. Realizava ultrapassagens perigosas e deixava rastros de fogo por onde dirigisse. 
     Depois de percorrer as ruas durante um tempo, a garota foi obrigada a parar em uma estrada, que abria passagem para um lugar alto, semelhante a um barranco.
     Márcia desceu do veículo e se pôs a observar o despenhadeiro.  


sábado, 14 de setembro de 2013

Julgamentos à parte.



    Definitivamente, o ato de julgar não é nada vantajoso.  Emitir um julgamento a alguém (neste caso, falarei particularmente das pessoas), sem conhecer ou saber o que se passa dentro de seu interior, é de uma superficialidade tremenda.
    Tarefa difícil essa, para nós humanos, errantes que somos. Nós que estereotipamos e rotulamos a todo o momento. Ainda mais em uma sociedade que está afundando em valores “desconhecidos”, como a nossa.
    Desde que comecei a estudar Psicologia, precisei conviver um pouco mais com a tal da empatia. O que é complicado, porque, atualmente, somos extremamente individualistas. Na contemporaneidade é o individualismo que reina.
    Contudo, comecei a ver o outro de uma forma mais singular. E com o passar do tempo, tentei transformar (embora eu tenha conseguido poucos avanços) o meu olhar de julgamento em mero coadjuvante. É preciso exercitar maneiras de descobrir a história de um indivíduo antes de aponta-lo segundo a “moral da sociedade”.
    A verdade é que tudo tem um motivo. Qualquer característica que esteja cravada em sua personalidade, seja ela boa ou ruim, não aconteceu por acaso. Nós somos constituídos por uma história, a qual segue nos moldando, até o último dia de nossas vidas.
    Portanto, meu caro, procure não julgar, antes de saber o que está por trás daquele ato/palavra/sentimento. Há muito mais do que os seus olhos podem ver, há muito mais do que a sua percepção pode admitir.
                        
                                  “Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”. 

sábado, 7 de setembro de 2013

Marcela.


     Marcela era uma mulher íntegra, encantadora, batalhadora e cativante. Seu principal adjetivo era ser decidida. Tomava decisões em quase todos os assuntos que lhe envolviam, exceto um.  Há muitos anos se apaixonara e desde então, conhecera o sofrimento. Embora soubesse da incompatibilidade do romance, permanecia batendo na mesma tecla.
     Desde que iniciou sua história de amor, manteve-se presa, ora de uma forma, ora de outra. Hoje, é aprisionada por cordas do passado, envoltas em seus pulsos. Cordas que lhe impedem de alcançar a superação. Marcela sempre as leva, por onde for, e segue arrastando-as pelos cantos.
     Durante muito tempo, Marcela  deixara passar oportunidades de ser feliz e pessoas que estavam dispostas a compartilhar uma vida inteira ao seu lado. Sempre nostálgica, regressava às lembranças e encontrava as mágoas escondidas em seu ser. Mágoas que se convertiam em medo: medo do “não”, medo de arriscar, medo de sofrer novamente, medo de permitir, medo, medo, medo...
     Em uma noite estrelada, a morena resolveu visitar o parque de sua cidade. Estava com os “sintomas” de sempre e precisava colocar os pensamentos em ordem. Caminhou pelo local por alguns minutos, admirando a essência da natureza. Então, decidiu sentar-se na grama verdinha e observar o brilho das estrelas. Marcela estava distraída, quando sentiu alguém lhe tocar o braço. Assustou-se e no mesmo instante, virou-se para trás. Deparou-se com um homem alto, e os olhares de ambos se encontraram. Ele estendeu a mão e se apresentou:
    - Olá, meu nome é Paulo. Posso me sentar aqui?
    Marcela fez uma careta, franziu o cenho e após pensar por um momento, balançou a cabeça com relutância e disse:
   - Sou Marcela.
   Nas horas que se seguiram, os dois conversaram incessantemente e a morena conseguiu até esquecer que carregava as cordas no pulso. Paulo se ofereceu para leva-la em casa. Àquela altura do campeonato, Marcela só queria aproveitar cada segundo perto daquele homem tão intrigante, a ponto de fazê-la deixar o que passou para trás.
   Ao longo das semanas, o contato entre eles, apenas se estreitava. Encontravam-se dia após dia, porém, ainda assim Marcela dizia não estar preparada para se entregar e reescrever sua história. Apesar de Paulo lhe proporcionar o carinho, apoio e cuidado de que ela precisava, não era o suficiente. Nada podia suprir aquele “amor corrosivo”.
   Meses mais tarde, a situação continuava semelhante. Marcela mantinha suas cordas intocáveis, assim como, seu coração. Sentia um frio na barriga ao ver Paulo, suspirava por seu sorriso, desejava a sua presença, no entanto, acabou perdendo-se nas garras de sua própria “proteção”.
   Por fim, Paulo não aguentou. Desistiu. Passou a viver a sua vida, sem Marcela.
   Dois anos posteriores ao rompimento, Paulo estava com sua namorada, tentando ser feliz, embora não tivesse esquecido completamente a morena. Marcela, persistia sozinha, reclusa e presa.
   Até que, em uma quinta-feira pela manhã, Marcela recebeu uma notícia avassaladora. Seu antigo amor, iria se casar. A morena pensava que Clóvis, também não viveria sem ela, mas estava enganada.
   Chorou copiosamente por horas a fio. Depois, levantou-se da cama e se perguntou: O que eu fiz da minha vida esse tempo todo? Onde está o progresso?
   Abriu a janela do quarto e mirou o sol se pondo. Colocou as mãos no vidro, mordeu o lábio inferior e soltou um grito que estava abafado em seu interior. Estava decidida, iria mudar, ou também perderia o único alguém que a amou de verdade: Paulo.
   Fora até o trabalho de Paulo, mas não achou-o. Disseram-lhe que ele estava viajando a negócios.
   Passaram-se 15 dias e a inquietação da morena só aumentava. Como ela podia ter ficado com os olhos tapados, enquanto a vida escorregava pelos seus dedos? Como ela não reagira?
   Seus devaneios foram interrompidos pelo toque do celular. E foi ali, que a sua transformação realmente aconteceu. Soube que Paulo tinha sofrido um acidente de carro e não havia resistido. A partir daquele dia, a dor da perda, lhe ensinou que a vida é curta demais, para deixar de tentar.

“A vida é um redemoinho de emoções, que uma hora ou outra, nos pregam peças. Emoções que precisam se dissipar após uma ruptura. Emoções que precisam ser deixadas para trás e ceder lugar às novas. Emoções que necessitam contemplar  e curtir o presente, para enfim, construir um futuro. ”