sábado, 27 de julho de 2013

Presenteando o passado.



       Flávia erguia a sua xícara de café, enquanto olhava os flocos de neve caírem lá fora. Encostou sua face na vidraça e ouviu os poucos pingos de chuva, que batiam na janela, ressonarem em seu ouvido. A neve e a chuva tilintavam no vidro, construindo uma verdadeira melodia, contemplada pela garota que se encontrava dentro daquele casebre.
Memórias vinham à sua mente. Recordações de um passado descumprido. Seu sorriso foi roubado em poucos segundos, ao se lembrar de Aleph. Já não sabia o que fazer para desviar certos pensamentos que a atordoavam. Lembranças de uma felicidade sonhada a dois, mas jamais concretizada.
       Ele partira. Deixara a linda moça de olhos cor de mel e cabelos pretos, sozinha, em uma tarde de verão. Nem sequer esperou o inverno chegar, para congelar tamanho sofrimento. Deixou o coração de Flávia, caloroso, apaixonado e doloroso.
Em um ato inesperado, a garota correu até a porta, abriu a maçaneta e partiu. Partiu para o mundo. Ou melhor, para reconstruir e celebrar o seu novo mundo.
       Entrara no primeiro trem que estava à sua vista. Acomodou-se no vagão e deixou o destino leva-la para onde estava determinado. Ele o levou para junto dos olhos azuis que outrora havia apreciado. Um azul da cor do mar, que fê-la mergulhar em seus profundos sentimentos no passado.
       Contudo, agora o tempo era presente. Flávia decidiu se arriscar, permitiu-se sentir. Era o que deveria ser feito, era o segundo passo para que ela mesma se encontrasse, em meio aos seus estigmas.
       Enganou-se. Observava Raul e enxergava o Aleph, o seu Aleph. E durante anos, sentia como se a presença de seu antigo amado fosse constante no protótipo que escolhera. Revivia momentos, repetia-os. Mesmo com tamanha semelhança entre Raul e Aleph, parte de Flávia, persistia presa e solitária ao seu primeiro e grande amado. Nada o traria de volta, porém, a garota se contentaria com o reflexo do olhar azulado. Em Raul, Flávia encontrava as duas partes de que precisava para sobreviver: a representação do velho  e o novo, o reflexo do passado e o presente.

 
Obs: Texto baseado exclusivamente na música Aleph - Anahí. Ainda não tive nenhum contato com o livro, O Aleph.

sábado, 20 de julho de 2013

Pintura celeste.

 
 
 
   Estávamos em um lago do outro lado da cidade. Após cinco horas viajando pela estrada de chão, chegamos ao belo local, que se assemelhava ao paraíso. Juliana e Pedro entraram no lago, primeiramente. Havia rochas que atrapalharam minha passagem e me causaram desequilíbrio. Alguns segundos lutando contra aquelas pedras escorregadias saltei na imensidão esverdeada. A água estava límpida, as algas eram visíveis a olho nu. Levantei uma quantidade de gotas em minha mão e fi-las cair, concretizando a união daquele líquido infinito.
   De repente, olhamos para o alto. O céu estava extremamente azul mesclado com rajadas dos raios de sol. As nuvens eram poucas, mas proporcionavam um certo equilíbrio colorido à pintura celeste. De repente, começaram a se formar pedregulhos azuis, como se fossem estilhaços de um vidro querendo se quebrar. E então o espetáculo se realizou: os estilhaços passaram a se desintegrar e cair como uma chuva sobre nós.
   Maravilhados com aquela oportunidade que a natureza havia nos propiciado, abraçamo-nos,  enquanto esperávamos que tudo voltasse à origem da normalidade.  

sábado, 13 de julho de 2013

[Parte 4] O mistério da vizinhança.



    Diversas almas me assombravam à medida que eu passava por entre os estreitos vãos da sala.
    Procurei pelos dois quartos, mas não o encontrei. Ouvi conversas no saguão e me virei para ir até lá. Cautelosa, mirei a alma de Tim enclausurada com Fernanda à sua frente. O menino implorava pelo fim do sofrimento de ambos e das vítimas, mas a garota não cedia.
    Algum tempo mais tarde, Fernanda deixou o saguão. Rapidamente, libertei a alma de Tim das trevas e lhe expliquei o que deveria ser feito.
    Às escondidas, Tim reuniu as almas em um quarto e começou a contar a verdadeira história, mostrando-lhes a realidade.
    Atordoadas, cada alma tomou a sua forma humana e foi ao encontro de Fernanda, para o acerto de contas. A garota foi aterrorizada por elas.
    Repentinamente, a sala tornou-se um breu. Almas repletas de escuridão surgiram para levar Fernanda. A garota tinha a sua última chance de rendição.
    Antes que a capturasse, Fernanda desistiu de sua vingança, perdoou e foi perdoada. Assim, todas as almas que vagavam ali, se direcionaram à dimensão celestial.
    Enfim, deixei o sobradinho e caminhei para o abraço de franzino. Sorri, enquanto ele pronunciava: - Está tudo bem.
    Perguntei-lhe seu nome. Era Alan. Mas pra mim, sempre seria o jovem franzino que me ofereceu uma nova chance de vida.
    Regressamos à casa de madeira. A polícia já estava na porta. O desespero de minha mãe me comoveu. Caí em um choro doído, sentido, mas felizmente vivo.


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Nós e o outro.


      A insônia me embala em uma noite fria. Os tormentos começam a emergir, a incerteza rouba a cena. E tudo o que estava nos eixos, em fração de segundos, deixa de estar. As dúvidas surgem e você se pergunta o que fazer, se nossa vida depende do outro. O que fazer se nosso levantar de cada dia, depende do olhar para o próximo, da interação com o mesmo.
      Não saberíamos viver sozinhos. E na verdade, não teria a menor graça. Seríamos pacatos, ignorantes (até mais do que somos). O fato é que há a necessidade de estar em contato com alguém. Há a necessidade de partilhar a felicidade ou encontra-la a partir do encontro com o outro. É aí que surge o problema.
      E se este outro tiver receio de se entregar? Um outro, que apesar da beleza presente em seu ser, foge ao que a sua essência aponta. Existem tantas máscaras por aí, não compreendo a finalidade de criar mais um “eu”, a fim de ocultar o que realmente somos.
      Então, persistimos vivendo de esconderijos que julgamos jamais serem habitados por alguém. Mas até quando aguentaremos? E se não aguentarmos? E se quando dermos conta do que deveríamos ter feito, for tarde demais? Vamos deixar o medo como uma forma de coação? Vamos deixar de viver, deixar de enfrentar os problemas, deixar de desfrutar do que temos hoje?
      Não, isso não é um modo de viver digno. É preciso aceitar nossas imperfeições, é preciso ‘abraçar nossa história’, é preciso nos amar. É preciso assumir o nosso interior do jeito que ele é, do jeito que traz a felicidade. É só a partir da nossa felicidade própria, que podemos tentar fazer o outro feliz.
     Enquanto permanecemos negando a nós mesmos, a vida escorre pelo ralo. Enquanto o ponteiro do relógio avança, não fazemos nada de produtivo, nada de memorável. Enquanto seguirmos com este erro, o ciclo não se acabará.  

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Transbordando saudade.



Saudade,
do gosto do seu beijo,
de realizar o meu desejo,
dos seus olhos nos meus,
que me levam ao céu.

Saudade,
daquela tarde de verão,
em que deixei a solidão,
para viver ao teu lado,
em um abraço apertado.

Saudade,
do teu corpo,
daquele copo,
cheio de bebida,
e da felicidade desmedida.

sábado, 6 de julho de 2013

[Parte 3] O mistério da vizinhança.


       Paramos em uma rua deserta onde existia apenas um sobradinho ao lado de um pântano. O vizinho mais velho e o robusto, deixaram o carro, aliaram-se à garota e adentraram no sobradinho. Já o vizinho jovem ficou me observando no veículo.
       Pensei que ele teria a mesma idade que eu, 19 anos. O seu rosto era cheio  de espinhas, utilizava um óculos do tipo nerd e um cavanhaque. Por alguns minutos, encarei-o, a fim de arrancar alguma informação dele, no entanto, o jovem desviava o olhar. O seu medo era tão evidente quanto o meu.
´      - Por que vocês estão fazendo isso comigo? - perguntei aos prantos.
       - Não pense que gostamos – hesitou.
       - Então porquê se submete a realizar tal violência?
       - Somos pressionados pela garota.
      Seu olhar perdeu o brilho. Envergonhado e com raiva, esmurrou a porta do carro. Segundos depois, voltou a me encarar. Aproveitei a oportunidade, indagando: - Quem é ela? Qual é o motivo de tanto ódio?
      Ele recuou por um instante, quando percebeu que havia proporcionado pistas à prisioneira. Perplexo, me olhou mais uma vez e disse:
      - Estou cansado dessa situação. Não quero mais provocar sofrimento a inocentes. Venha comigo!
      O jovem me ajudou a sair do carro. Andamos rapidamente até a entrada do sobradinho. Nos escondemos atrás de uma árvore ali perto. O franzino começou a narrar uma história, enquanto eu mirava pela janela.
     - Há uma década atrás, os habitantes da casa na qual você está morando, culparam a garota Fernanda pela morte do filho mais novo deles. Ela era a babá do pequeno Tim e o protegia quando os pais e o irmão saíam para seus afazeres. Em uma sexta-feira, Tim sofreu um acidente, ingerindo álcool. Fernanda não teve chances nem de se explicar. Os pais de Tim, quando souberam da tragédia, arrastaram-na para este sobradinho e a queimaram, desde seu calcanhar até o último filme de cabelo. Ela tinha 14 anos na época. Desde então, sua alma traumatizada fica vagando por este mundo e realiza planos maléficos com aqueles que habitam a casa. Fernanda nos obriga, através de ameaças, a matar quem invade seu espaço. Apesar de possuir uma forma humana, ela não pode torturar as vítimas com as próprias mãos, pois não conseguiu aderir a nenhum corpo. 
Olhei pela janela e vi formas humanas perambulando dentro do sobradinho, junto com Fernanda. Perguntei ao vizinho, quem eram elas.
    - Todos que já matamos, a mando da garota. A alma de Fernanda é perturbada e tem sede por vingança.
    - E por que ela veio a este sobradinho antes de me matar?
    - Porque ela se reúne com as demais almas, a fim de decidir o pior tipo de morte para a ocasião.
    Antes que eu pudesse lhe perguntar, ele explicou:
    - As almas são enganadas e acreditam que Fernanda é a única capaz de lhes dar paz.
    - Temos que parar esta garota, antes que seja tarde e ela torture mais alguém.
    O vizinho jovem assentiu com a cabeça. Franzino prosseguiu:
    - Segundo a história, a garota aprisionou a alma de Tim nesse sobradinho. O menino é o único que sabe a verdade sobre Fernanda. Ao revelar o segredo às demais vítimas será decretado o fim da vingança.
    Os dois vizinhos foram até o pântano, contudo Fernanda permaneceu no sobradinho.
Esperei eles saírem, caminhei da árvore até a porta, ultrapassei-a, me abaixei e encostei na parede.  Meus músculos estavam enrijecidos, meu coração disparado e minha respiração ofegante.
    Iniciei a minha busca por Tim, dentro do local.