domingo, 24 de agosto de 2014

Interdependência vital.


    Somos interdependentes. Vivemos cobiçando a nossa independência, mas jamais teremos liberdade o suficiente, para sobrevivermos sozinhos. Participamos de um mesmo quebra-cabeça.
    Precisamos do outro, nos constituímos a partir de marcas/legados que alguém deixa em nós. Somos orientados para vida a partir das influências: primeiramente de nossos pais, posteriormente das escolas e por fim da sociedade como um todo.
    Às vezes deixamos a nossa individualidade se sobrepor e acabamos esquecendo que o próximo pode fazer parte de nosso ser. Basta permitirmos. 
    Cedo ou tarde, o destino nos coloca frente a situações, nas quais, ou deixamos o egoísmo de lado ou ele escorrerá por nossos dedos naturalmente. Vez ou outra, negamos o auxílio a quem necessita, contudo o mundo gira, e após a negação, seremos nós os necessitados.
     Elegemos a quem nós podemos fazer bem e quem podemos tratar mal, mas certo dia também somos elegidos. É um jogo mútuo, onde ora estamos em uma posição de passividade, ora estamos na posição de atividade. Agimos e reagimos, ação e reação, talvez seja essa a lei da vida

sábado, 16 de agosto de 2014

O sopro do recomeço.


       Marina andava cabisbaixa pela praça central de São Paulo, o dia não havia sido nada favorável para ela, aliás, há muito não o era. Decidiu sentar-se no banco onde a sombra repousava e deparou-se com um jardim cheio de flores: rosas, girassóis, orquídeas.
    Por alguns minutos conseguiu admirar a beleza natural. Então foi surpreendida por uma planta que era diferente de todas aquelas flores, era única e encontrava-se no meio, rodeada pelas outras. Era um dente-de-leão, intacto, protegido, o qual despertou em Marina o reflexo de sua personalidade. Uma jovem solitária, peculiar, que se destacava das pessoas por seu jeito distinto de ser. Às vezes não era aceita, ou quem sabe não era notada como gostaria, e por isso, criou uma barreira protetora em seu interior.
     Sem pensar, levada pela emoção, colheu-o. Colocou aquela pequena amostra de si mesma entre as mãos e mirou-o silenciosamente. Por um instante, quis deixar tudo o que era pra trás, queria se transformar, abraçar-se, beijar-se. Marina depositou cada sonho em uma parte do dente-de-leão. Por fim, assoprou-o. As flores foram caindo ao chão, levadas pelo vento, assim como a tristeza de Marina que naquele momento acabara de dissipar e dera lugar a esperança de se renovar.

sábado, 9 de agosto de 2014

[Parte 3] O portal.



       Sofia deparou-se com a imagem da mãe. De repente, um clarão pairou no quarto e como em um filme, a história dos pais de Sofia foi sendo mostrada. Sofia mirava-a quando pequena, debruçada em lágrimas. O tempo foi passando, até chegar aos 6 anos, no dia em que seus pais morreram. Sua mãe chegara tarde em casa, por conta do trabalho e encontrara o marido na cama com a amante. Renata, a mãe de Sofia, não discutiu com o esposo, apenas arrumou a sua mala e já ia saindo de casa, quando Raul atirou em suas costas. Renata caiu e o sangue escorreu pelo assoalho. 
       Depois disso, Raul atirou em suas têmporas. A amante, assustada com toda aquela cena, tocou no revólver e chorou em cima do corpo do amado, até a polícia chegar e prendê-la em um suposto flagrante.
       O sofrimento era estampado no rosto de Sofia e a dor também era marcada na forma da sombra. Renata nunca aceitou a perda da filha, queria leva-la para o seu mundo e por isso, atormentava-a.
       Em um momento de emoção, Sofia chegou perto da “mãe” e tentou toca-la, mas foi em vão. Por mais que a filha quisesse tê-la por perto pertenciam a mundos diferentes e Renata deveria regressar ao submundo.
       Fred sabia o que deveria ser feito. Invocou a alma de seu velho avô, para conseguir reabrir o portal e então levar Renata para o submundo. O avô de Fred ressurgiu e Renata, apesar de amar a filha, entendeu que ali não era mais o seu lugar. Ambos ultrapassaram o portal. A forma da Renata ainda mirou a filha, antes de desaparecer. Havia uma espécie de sorriso aliviado em seu rosto.
       Sofia aconchegou-se nos braços de Fred, chorando copiosamente. Horas depois adormeceu, anestesiando a dor.

sábado, 2 de agosto de 2014

[Parte 2] O portal.


       Chegando na universidade, Fred logo percebeu que havia algo errado com a amiga. Ao ser questionada, Sofia levou-o para um local afastado e contou tudo o que estava havendo. Fred ouviu atentamente e demonstrou uma reação natural. Surpresa, Sofia perguntou ao amigo se ele não estava espantado e assim, Fred decidiu revelar-se para ela. 
       O amigo contou que fazia parte de um grupo espírita e lidava com aquele tipo de situação frequentemente. Procurava ajudar as pessoas que eram atormentadas por seres do submundo. Abraçou Sofia e propôs-se a trazer paz novamente para a vida da amiga.
       Às 23:00h Fred chegou. Sofia estava apreensiva, não conseguia pegar no sono, olhava o relógio a cada minuto. Temia que o despertador apontasse 3:00h. Os dois permaneceram juntos o tempo todo.
       Na virada de 2:59h da madrugada, Fred começou a sentir uma presença estranha na casa. Sentiu calafrios, tremores e cerrou o cenho. Fred não conseguia ver nada, apenas sentia. Ao seu lado, Sofia mirava novamente a sombra, direcionava Fred para o lugar em que ela estava, mas o amigo não conseguia enxerga-la.
       Sofia começou a gritar ao mirar a sombra se aproximando dela. Fred, rapidamente, se interpôs entre a sombra e Sofia e pegou a Bíblia que estava dentro de sua mochila. Começou a proferir uma oração, ordenando que a sombra mostrasse quem era em sua forma humana. Como resposta, escutou um rugido ensurdecedor aliado a tremores e redemoinhos que o afastaram do caminho, jogando-o ao chão.
       Eram 3:50h, Sofia dava passos para trás, afastando-se do mal até o momento em que ficou contra a parede, sem saída. O portal estava ameaçando se abrir e a sombra empurrou Sofia para a entrada. Sofia estava com parte do seu corpo já dentro do portal. A jovem resistia o quanto podia, mobilizava todas as suas forças. Fred finalmente conseguia mirar a sombra. Levantou-se do chão e iniciou um ritual sagrado, enfraquecendo o poder do mal e fazendo com que a sombra permanecesse no mundo real. Por fim, Fred puxou Sofia para fora do portal, que então se fechou.
       Enfraquecida e presa no mundo dos homens, a sombra cedeu, mostrando a sua forma humana. Surpresa, Sofia não podia acreditar no que estava diante de seus olhos.