sábado, 26 de julho de 2014

[Parte 1] O portal.


      Eram 3 horas da manhã. Sofia despertara mais uma vez, como toda noite, no momento exato. Estremeceu, quis não abrir os olhos, mas sabia que ela estava lá: a sombra. Colocou o travesseiro sobre o rosto e cobriu-se. Dizia para si mesma: não posso abrir os olhos, não posso!
      Alimentada pelo medo de Sofia, a sombra se aproximara da jovem, emitia gritos infernais e falas demoníacas, atormentando-a. Pavorosa, Sofia não resistia e simplesmente a mirava.
Era uma sombra deformada com olhos famintos e acinzentados, boca escancarada sem dente algum, apenas com um vazio característico e dolorido, ansiando por Sofia.
      Sofia tentava “esquecer” que a sombra estava lá ao pé da sua cama. Tentava pegar no sono novamente, mas jamais conseguia. Com um esforço descomunal, apenas  cerrava os olhos até a sombra voltar para o submundo. Já eram 4:00h, quando o portal entre os dois mundos, finalmente se fechou.
      Há meses essa tortura se instalara naquele quarto onde Sofia morava. A jovem de 21 anos era sozinha na vida. Perdera os pais cedo, assassinados, mas nunca soubera realmente como acontecera o dia fatídico. Vivera em um orfanato até a maioridade.
Ia para a faculdade durante a manhã e trabalhava no período da tarde para se sustentar. A jovem só conversava com o seu amigo Fred, que a ajudava sempre que precisasse.
      Arrumou-se para ir à faculdade, mirou-se no espelho, viu as marcas das suas olheiras tão características e partiu. A jovem ficava refletindo sobre o que deveria fazer, sabia que a situação não poderia continuar daquela maneira. Pensou, repensou e viu que sozinha não resolveria o problema, então decidiu contar para Fred.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O giro da vida.


      Fernanda estava com a casa cheia naquele domingo ensolarado. Era aniversário de Renan, seu filho completava 5 anos. O menino estava brincando com os primos gêmeos Jéssica e Gustavo, dois anos mais velhos que ele.
      Mãe e filho levavam uma vida difícil. Fernanda era mãe solteira e sustentava-os, a partir do trabalho artesanal que fazia em casa para, posteriormente, vender.
Renan teve que se contentar com o pouco que a mãe podia lhe dar, desde cedo. Vez ou outra ganhava alguns brinquedos que seus primos deixavam de usar.
      A mãe olhava para aquelas crianças e ficava imaginando porque a realidade era tão desigual. Jéssica e Gustavo tinham pais ricos, ganhavam do bom e do melhor, mas ao olha-los a carência era perceptível em seus rostos. Já Fernanda, apesar da condição financeira precária, sabia que fazia o filho feliz e era isso o que mais importava.
Naquele mês, Fernanda havia vendido poucos artefatos, sendo que a remuneração deu pra pagar apenas as contas básicas. Não pudera comprar presente para Renan e sentia um torpor devido àquele fato.
      Ela decidiu então, passar a noite construindo um pião de madeira para presentear o filho. Utilizou da sua habilidade com as mãos e fê-lo.
      A mãe pegou o pião de madeira, aproximou-se das crianças e entregou-o ao filho que lhe retribuiu com um largo sorriso e um ‘eu te amo mamãe’. Fernanda sentou-se ao lado das crianças e observou a tristeza de seus sobrinhos, Jéssica e Gustavo.
      Observou Renan rodar o pião e por um momento, refletiu sobre a vida. Percebeu que todos tinham dificuldades, mas também tinham aspectos positivos. O grande impasse era aprender a ver a vida rodar, aonde sempre há momentos de alegria e outros de tristeza, intercalados. Percebeu que quando o pião parou de girar, haveria o desequilíbrio. E neste momento se questionou: “O que eu devo fazer quando a vida parar de girar?”
      Foi então que, Renan, recuperou o seu brinquedo, entregou-o à mãe dizendo: “Sua vez de rodar, mamãe!” Os olhos de Fernanda encheram-se de lágrimas e assim, ela compreendeu que sempre há algo ou alguém que nos motive a encontrar um novo caminho, uma nova possibilidade de recomeçar.

sábado, 12 de julho de 2014

A arte de viver.


     Afinal, quanto tempo nós temos? Segundos? Minutos? Horas? Dias? Meses? Anos? Indecifrável, indefinível. A vida é um tiro no escuro, uma queda livre, a qual, não sabemos quando irá acabar.
     Como entender o porquê que algo acontece no tempo “errado“? Como entender os acontecimentos que não se dão no tempo que ansiamos? Uns acreditam em destino, alguns em propósito e outros em algo divino. Dizem que depois, tudo se é explicado, dizem que no futuro somos capazes de compreender, mas quem garante que teremos futuro? A verdade é que só temos o agora.
     Então por que não amarmos, não fazermos, não valorizarmos o que se tem hoje? Por que estamos sempre projetando a nossa vida em um tempo incerto?
     O ser humano se acha mesmo dono da razão, dono do seu destino, mas não percebe que a sua vida sempre está por um fio e que isso é incontrolável.
     Se partirmos dessa vida, sem viver, de que terá valido?
     Então, vamos aproveitar o que realmente temos no momento e deixar de lado o que queríamos ter tido ou o que ainda queremos ter. Faça seu hoje ser da melhor maneira possível, busque o que te deixa feliz. Não deixe que o seu presente se baseie em um possível arrependimento futuro.


sábado, 5 de julho de 2014

Impulso corajoso.


   Veja as suas cicatrizes, menina! Como pode suportá-las? Como pode deixa-las sangrar novamente?
   Olhe-se no espelho e me diga o que vês! Não consegue ver nada, certo? Tola! Ainda fico me perguntando porquê você insiste nesse masoquismo patético.
   Não há mais opções, é o fim. Seja mulher e apenas aceite! Aceite o que a vida ainda pode lhe oferecer.
   Pare, pense, há muito o que se viver. Por que ainda insistir em alguém que nunca será seu? Não, isso não é amor. Pode ser tudo, menos amor. Amor que é amor, não traz sofrimento assim, não te leva ao fundo do poço.
   Coragem minha garota, coragem! Sei que essa força está aí dentro, em algum lugar...
Você não merece passar por tamanha dor, não merece dormir com o travesseiro molhado todos os dias, não merece negar-se sorrisos.
   Saia do comodismo, deixe-o para trás! Somente faça, aja, liberte-se!