domingo, 30 de dezembro de 2012

Fragmentos de um sonho.


        Estava sentado na calçada, debaixo de uma árvore. Observei aquelas três meninas se aproximarem, enquanto uma me chamou a atenção. Olhei seu semblante diferente e cabisbaixo. Tinha o cabelo longo e de um preto bem vivo, com mechas louras nas pontas que contrastavam com a sua pele pálida. Ela portava um tipo de boné, com aba reta e estava de mochila nas costas que caía apenas sobre um de seus ombros. Segui-a até um lugar estranho, idêntico a um quarto branco. Esperei as amigas saírem, para encontrá-la. Coloquei as mãos na bancada e mirei-a fixamente. Ela era inexperiente, parecia ter uns 15 ou 16 anos, e eu no auge dos meus 18. Mesmo assim, assemelhava-se a um anjo e me despertava um grande interesse. Perguntei algo a ela, porém antes que eu pudesse terminar, ela beijou-me os lábios, sem dizer nada. Suas mãos percorriam o meu rosto e o seu gosto a minha boca. Acordei sentindo-a por perto. Procurei dos lados, mas não existia ninguém ali. Fiquei pensando por horas a fio naquele pequeno sonho que causou-me tanto fervor e passou-me tanta realidade. O meu desejo por tê-la junto a mim, era bem maior do que o fato de eu mesmo tê-la criado: a garota dos meus sonhos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Espírito natalino: o poder de superação.


        Roberto estava a mil por hora. Cruzou a Avenida Dutra em sua motocicleta como se aquele fosse o último segundo de sua vida. Acelerava freneticamente enquanto sentia o ardor de raiva percorrer todo o seu corpo. Sentia-se acabado há muito tempo e carregava consigo uma explosão de emoções negativas. Na noite passada, havia acontecido o estopim. Em meio a mais uma discussão com o seu pai, relembrou-se do momento da adolescência, quando este mesmo homem, acabou com os teus sonhos.
        Embora tivesse os seus 25 anos, jamais apagara da mente aquela noite fatídica. Contara a seus pais que iria pra capital, a fim de construir a sua carreira como arquiteto. Para um pai severo, aquele era o maior desgosto que podia ouvir. Roberto ainda ficava atordoado ao pensar nas palavras que o velho lhe dissera: "Arquitetura não é coisa de homem! Cabra macho tem que pegar firme no batente, aqui na roça, rapaz". O jovem não se surpreendera, sabia do preconceito do pai, mas ainda assim, doía e como doía. Caminhou em direção a porta, porém o pai impediu-o de sair. Pegou-o pelo braço, arrastando-o para o fundo do casebre. Roberto tentava escapar, mas era magro, pequeno e fraco. O pai amarrou-o em um tronco da árvore, despiu-o e acertou-lhe dez vezes com a vara. Roberto engolia o choro, para não proporcionar o prazer ao teu pai, afinal, ele sempre fora humilhado, perante a todos da família. Na madrugada seguinte, fugiu pela mata e desde então, encontrava com o seu pai, apenas quando raramente ia visitar a mãe doente.
        De repente, Roberto virou bruscamente a moto e dirigiu em direção à sua antiga casa. Chegando ao local, esmurrou a porta com toda a sua força e se deparou com as suas irmãs, seus pais e alguns amigos de infância comemorando a ceia de Natal. Lágrimas caíram de seus olhos imediatamente. Sentiu compaixão, por um momento. Entrou no teu velho quarto e se trancou. Tocava as fotos que esquecera ali. Abriu todas as gavetas a procura de algo que lhe proporcionasse mais recordações positivas. Então, por azar, encontrou a jaqueta que usara no último dia que vivera naquele lugar. 
       Vestiu-a e parecia estar possuído por um ódio mortal. Transformou-se totalmente. A compaixão não lhe pertencia, havia ido embora. Buscou uma forma de sair de seu quarto, sem que ninguém o visse. Acabou pulando a janela. 
       Lívia, o primeiro amor de Roberto, mirou-o caído e posteriormente levantando-se da grama. Chamou Carla, despistou os outros e foi atrás dele. A moto estava estacionada na estrada, longe da casa principal. Tinham que percorrer um pequeno trajeto de terra, lama e crateras. Lívia e Carla o seguia, sem que Roberto percebesse. Correram em direção a ele e o jogaram-no ao chão.  Tiraram-lhe a jaqueta, na tentativa de fazê-lo esquecer por um tempo, as más recordações. 
       As duas amigas, resolveram levar a jaqueta com elas e se esconder, até que Roberto se acalmasse e pudessem dialogar. Refugiaram-se em um quarto que havia no território. Esconderam-se em uma espécie de caixa de madeira, grande, branca e com vidros laterais que estava encostada na parede. Tremiam de medo da reação de Roberto, temiam serem descobertas. 
       A porta do quarto se abriu e lá estava Roberto. Parecia fora de si, inconsequente, impulsivo e não aquele, por quem, Lívia nutria um enorme carinho, desde sempre. Ele aproximou-se da caixa, olhando-a por trás. As mulheres estavam extremamente apertadas lá dentro. Quando Roberto virou-se e deu alguns passos em direção à saída, elas abriram o tal compartimento e chamaram seu nome.
       O homem virou-se para que pudesse vê-las. Não podia conter a ira que sentia. Lívia resolveu pegar um isqueiro que estava em seu bolso, a fim de queimar a jaqueta e também as lembranças de Roberto. Ele lançou-se sobre Lívia querendo recuperar a lembrança ruim, como se quisesse mantê-la presa em seu interior. Mas foi em vão. Já era tarde e a jaqueta tornou-se cinzas.
Calmamente, Carla iniciou o seu discurso para com o amado. 
       - Roberto, você precisa se libertar deste passado, esta nuvem negra que não te deixa viver como antes. É preciso encará-la de frente, afinal, ao mesmo tempo que a sua história deixou inúmeras marcas, também fê-lo ser o que é hoje. Fê-lo crescer, lutar pela sua profissão e conquistar o que realmente queria. É preciso perdoar os seus pais, esquecer as desavenças que passaram e não trazê-las para o presente. Não carregue mais este fardo, ele só te enfraquece, te faz brigar com o seu pai e se afastar da sua família, que embora, tenha errado contigo, te ama. Pense neste espírito natalino, agora é o tempo de se superar. Reflita os inúmeros natais que o seu rancor não permitiu que estivesse aqui junto conosco. É hora de recomeçarmos, juntos!
       As pernas daquele homem bambearam e o seu coração estremeceu. Ela está certa, pensava consigo mesmo.
       Roberto olhou Lívia atentamente e foi ao seu encontro. Abraçou-a e protegeu-a entre seus braços. Beijou-a e sentiu-a como sempre quis. Após o longo beijo, sentiu-se como se ainda fosse aquele adolescente que sempre sorria ao vê-la. Ela estava ali, para ele. Carla se aproximou do casal e os três se abraçaram, entre risos. 
       Depois de um tempo conversando, Roberto, resolveu retornar ao casebre e celebrar o Natal com aqueles que amava. 




Observação: Tentei construir algo diferente em relação ao Natal, galera, abordando-o como um tema secundário, mas essencial para o desfecho do conto. Espero que gostem. Um Feliz Natal a todos e um próspero Ano Novo. Agradeço aos meus leitores que me auxiliaram a permanecer em mais um ano de blog. Obrigada pela motivação, comentários e afins.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

[Parte 3] A trilha.



     A mulher pronunciava a tradução, porém o compartimento permanecia trancado. A partir de um surto de raiva, atirou contra o braço de Paula, a líder do grupo.
     Raul observava exteriormente toda àquela cena. No início do passeio, ele se perdera de seus amigos, retornando à cidade e pedindo ajuda para encontra-los. O quarto elemento era mais experiente e bastante sábio. Cuidadosamente adentrou a gruta, no entanto, foi percebido pelo capanga, que o rendeu ao chão.
     A mulher de cinza o indagava: 
     - Quem é você? O que está fazendo aqui? Como nos encontrou?
     - Não se lembra de mim, Pam? Era bem pequena, quando salvei a humanidade e destruí as ideias de seus pais.
     Atormentada, Pam relembrou seu passado, pegou a sua cunha e apunhalou Raul, nas costas. Mesmo com grande dor, Raul falava lentamente: - Você precisa de mim, Pam. Só eu posso abrir esta caixa.
     Pam puxou o cabelo do quarto elemento e exigiu que ele traduzisse. Raul não tinha saída, então começou a tradução. Passado alguns minutos, a caixa se abriu. Rapidamente a mulher de cinza pegou o talismã que abrangia o interior do compartimento, colocando-o em seu pescoço.
     De repente, Pam transformou-se em uma enorme gata acinzentada, com garras afiadas e olhar maligno. Saltou sobre o grupo dos 4, atingindo-os. Decidiu se livrar de Raul primeiro, devido à debilidade do quarto elemento. Porém, escolheu errado.
     Enquanto preparava o golpe, Raul alcançou o machado dentro de sua mochila e acertou Pam. Todavia, a gata era esperta e ágil demais, para ser derrotada daquela maneira. Ordenou que o capanga atirasse contra Raul. E foi o que aconteceu. A bala ultrapassou o colete do quarto elemento, penetrando por suas costas. Raul ensanguentado, urrava de dor.
     Júnior se libertou das cordas e agarrou a gata, golpeando-a. Pam, voltou à forma humana. Pardo tentou defende-la, mas fora atingido por uma rocha da caverna que desmoronou em sua direção.
     Em poucos segundos a gruta se tornaria uma ruína. Márcia, Paula e Júnior tentavam locomover o quarto elemento que ainda respirava.  Neste instante o policial da região que tinha recebido o pedido de Raul para procurar seus amigos, encontrou o local e algemou os meliantes.
     Todos carregavam o corpo de Raul e corriam para o fim da gruta, antes que a mesma desmoronasse. Alguns minutos depois, o grupo dos 4 estava reunido do lado exterior da caverna, promovendo os cuidados necessários ao quarto elemento.
     Horas mais tarde, retomaram a trilha e por ironia do destino, se depararam com o lago, que por um longo tempo, sonhavam em descobrir.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Renovação.

 

      Às vezes a vida torna-se rotineira demais e acabamos deixando de criar expectativas em tudo o que nos rodeia.  São nesses momentos que o pessimismo chega e nos agarra com unhas e dentes. Este sentimento nos aprisiona e embora queiramos nos livrar dele, parece ser impossível. A partir disto, se iniciam uma série de reações negativas que adentram nossa alma e nos fazem sentir inferiores. Mesmo conseguindo enxergar o brilho do olhar alheio, o nosso próprio olhar já não brilha mais.
     Se antes atribuíamos sentido às coisas mais simples, hoje isso não acontece.  Sentimo-nos injustiçados, como se a vida tivesse nos escolhido para passar por aquele sofrimento nas piores condições. Sentimo-nos sozinhos, desamparados, sem forças para nos reerguer e julgamos que a nossa história é a mais sofrível.
     Parecemos abitolados e miramos só o que queremos, sem perceber que existem outras saídas aos lados.  Almejamos o que nunca foi nosso e nunca será. Neste sentido, buscamos sofrer e em um momento de ousadia, digo até, que o ser humano em muitas ocasiões busca o masoquismo para ainda se sentir vivo. Através do sofrimento achamos que somos vítimas e que a culpa é do próximo, o qual nos apresentou este tal martírio.
     O fato é que se não reconhecermos o que está acontecendo conosco, desde as qualidades aos defeitos obscuros, jamais seremos capazes  de nos reerguer. A mudança, meus amigos, começa dentro de você. Se você não quiser mudar, não encontrará potencialidade em nenhum instante de sua vida.
      E eu lhes digo algo importante: até mesmo no sofrimento podemos encontrar uma resignificação. Basta querermos encontrar esta forma de superar situações ruins, dentro de nós mesmos.
     Ontem, ouvi histórias de mulheres batalhadoras. Mulheres de família formada e que embora tenham inúmeros empecilhos evidentes, lutam para fortalecerem o laço familiar. Mulheres sofredoras, brasileiras que mesmo com lágrimas no rosto, encontram uma pequena esperança de resiliência.
     E perto destas grandes mulheres, confesso que me senti envergonhada. Apesar de ser nova, vivi alguns momentos de dificuldade, mas estes nem se comparam com o que tais guerreiras presenciaram. Até então, antes de ouvi-las sentia-me como alguém que não encontrava mais motivo para buscar a felicidade. Comecei a ter o complexo de inferioridade, o qual persistiu por um longo tempo dentro de meu ser. Aliás, permaneceu, até ontem à tarde.
     A vida precisa nos balançar, nos impactar com a realidade, nos chocar para seguirmos em frente.  Encontrei a necessidade de mudar, de ser uma nova pessoa e deixar as minhas máscaras, o meu medo e a minha insegurança para trás. Saí daquele local, com a determinação de levar uma nova vida, melhor e mais significativa que a de antes.
    Lembre-se, meu caro leitor, nunca é tarde para recomeçar!
                                      

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

[Parte 2] A trilha.



     O diálogo prosseguia, até que Júnior soltou algumas palavras sem nexo. Seu olhar assustado evidenciava as dúvidas que tinham sobre a situação. Será que era uma inimiga. Será que sobreviveriam? Por que ela está agindo deste modo? Por que ainda não causou danos?
     A mulher de cinza fez um sinal para que Júnior se calasse. Ele era o único que não estava amordaçado. Júnior obedeceu.
     Logo depois da repressão, Márcia também voltou à consciência. Havia um pequeno sangramento em sua cabeça, o qual causava náuseas à Paula.
    Quando os três estavam sãos, a mulher chamou o seu capanga, um homem robusto e de enormes músculos, conhecido como Pardo. Ele os conduziu para fora da cabana, puxando-os pela corda que amarrava uns aos outros.
    A alguns metros, avistaram uma caverna. O céu já estava escurecendo e o pavor tomou conta dos amigos, a ponto de ficarem parados por algum tempo. A mulher de cinza tinha pressa e obrigou-os a continuar o trajeto.
    Os corvos habitavam o local, em peso. Um deles pousou na entrada pontiaguda da caverna. A escuridão beirava o local. Pardo acendeu uma vela para iluminar o interior da gruta.
    Quando se fez a luz, vários morcegos sobrevoaram seus corpos, ao passo que o grito de Márcia estremecia as paredes.
    Porções de terra previam um desmoronamento e devido a este fato, a mulher de cinza, acelerou o processo. Por fim, se depararam com um santuário guardado por um homem das cavernas. O mesmo estava repousando, mas despertou após o ruído dos ratos embaixo dos pés.
    Prontificou sua lança na direção deles, a fim de defender o lugar sagrado. Próximo ao homem havia um compartimento de vidro que abrangia algo dentro.
    Em meio ao estopim para o ataque do nômade, Pardo interviu, acertando um tiro em seu peito. No compartimento havia escrituras em hebraico, as quais só poderiam ser desvendadas pelo grupo dos 4. Tal grupo, era o único em todo o mundo, que convertia essas línguas. Contudo apenas três dos representantes se encontravam ali.
    Apesar disto, a mulher de cinza, acreditava estar portando o grupo completo e pediu que eles desvendassem o mistério. Como as tarefas eram divididas por partes, apenas um segmento em hebraico poderia ser traduzido, devido à ausência do quarto elemento.




quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

[Parte 1] A trilha.



     Estava deitada sobre o assoalho de uma cabana. Nunca estivera naquele lugar antes. Seus olhos ardiam ao se encontrarem com os raios de sol que adentravam a sala. Uma mordaça impedia que ela se comunicasse e as cordas, que se movesse. O nó estava apertado e por mais que se esforçasse para desfazê-lo, era em vão.
     Ela não estava só. Ao lado, compareciam seus dois amigos inseparáveis, até mesmo em instantes como aquele. Não refletia bem o que estava por vir, nem encontrava explicação para um momento tão estranho, mas pressentia o perigo no ar.
     A maçaneta da porta de madeira começou a girar, interrompendo seu raciocínio. A mulher morena de alta estatura, vestindo aquela roupa cinza flexível, se aproximava deles. Seu riso cínico causava calafrios nos reféns.
     A última vez que a vira foi horas antes da captura. No início, ela parecia estar realmente perdida e em uma decisão unânime, resolveram ajudá-la. A trilha passou a agregar mais uma companhia. Conversas despojadas quebravam o silêncio e a longa estrada que ainda percorreriam para chegar ao ilustre lago.
     Durante a caminhada, acabaram se envolvendo em um labirinto. Márcia tentava achar o caminho certo, seguindo pela esquerda, enquanto, Júnior seguia pela direita. Paula e a estranha mulher, cujo nome não sabia, andavam para frente. Aquele que encontrasse o caminho primeiro, avisava aos outros, assim poupariam tempo e cansaço.
     Contudo, a mulher de cinza, estragou a tarde. A última lembrança que Paula tinha, era a paulada em sua cabeça. Após isso, o presente a confrontava com aquela senhora em sua frente. Desejava arrancar-lhe o pescoço, mas a imobilidade a impossibilitava de realizar tal ato.
     Enquanto se perdia em pensamentos e esperava que Júnior e Márcia acordassem, ela dirigiu-lhe a palavra:
     - Não adianta se remexer, Paula. Meu plano está muito bem arquitetado e não há falhas ou rastros.
     - Pra quê continuar com essa conversa tola? Acabe logo com isso. Pare de aguçar a sua face cruel.
     - Ainda é cedo. 
     - Afinal, o que você quer de nós? Somos de classe baixa, não existe dinheiro algum para o resgate.
     - O dinheiro não me fascina desta maneira.  O que conseguirei, está além. Além de mim, de você e de nosso entendimento.