sábado, 22 de novembro de 2014

"A beleza machuca".


       Nos primórdios da humanidade, a alma era inseparável do corpo, segundo as teorias dos filósofos antigos. Com o passar dos anos, por meio dos estudos metafísicos, adotou-se a dualidade alma-corpo ou mente-corpo. A partir disso a alma/mente tornou-se valorizada, como uma espécie de projeção do nosso ser, de autopercepção e de “ir além”. No entanto, com o advento do capitalismo, houve a supervalorização do corpo e a busca pelo físico ideal, deixando a alma/mente como mera coadjuvante.
      Hoje em dia o ser humano possui uma tendência (quase que inata) de priorizar a sua imagem exterior, vendo-a como resolução de todos os problemas e conquista da felicidade.  Utilizam o corpo de diversas formas, mas acabam se esquecendo do verdadeiro “eu” que está maquiado ali dentro.
      Tal realidade é ainda mais intensa no mundo da moda. Muitas mulheres sonham desfilar em uma passarela, para serem aplaudidas e reconhecidas. Porém, a fim de alcançar o tão almejado sucesso, algumas se perdem no caminho. Há uma busca compulsiva e insaciável pela perfeição, através de dietas ferrenhas, exercícios físicos excessivos, os quais podem desencadear patologias como a anorexia e a bulimia.
      As câmeras, o palco, as agências e a mídia, costumam transmitir ao público uma visão eufórica, como se fosse algo fácil e bastante tangível, mas escondem/ofuscam o verdadeiro mundo da modelagem. Um mundo em que há sofrimento, pressões, exigências por um padrão, que prejudicam as pessoas deste meio e não são noticiadas nos jornais. Mortes são apagadas pelos holofotes.
     Assim, às vezes as (os) modelos carregam fardos dolorosos por toda a sua carreira a fim de atenderem aos estereótipos sociais. Em contrapartida, a alma passa a se sentir cansada e precisa ser zelada, reformada, tanto quanto o corpo.  
     Portanto, é necessário importar consigo mesmo de forma completa, visando o todo e ponderando os cuidados entre alma e corpo.
                                                                                                                                                                         “É a alma que precisa de cirurgia.” 

    Texto baseado na canção Pretty Hurts interpretada por Beyoncé.

domingo, 9 de novembro de 2014

Silêncio maldito.


Fique silenciada,
com a  alma desolada.
Continue remoendo,
permaneça se doendo.
Silêncio,
trate-se com dispêndio.
Palavras invalidadas,
liberdade surrupiada.
Cale-se,
e mate-se.
Mate-se lentamente,
torturando a sua mente.
Se deixar de dizer,
isso lhe fará morrer.
Aos poucos ruminando,
por dentro detonando.
À ponto de explodir,
e por fim, rescindir.

domingo, 2 de novembro de 2014

Sobrecarregada.


      Olhos cansados, mente fatigada, corpo sobrecarregado. Carregava o mundo nos ombros há muito tempo e não suportava mais tamanho sobrepeso. Era considerada mulher íntegra, honesta, boa, mas escondia sua verdadeira personalidade. Estava moldada segundo às vontades alheias. Queria ser tudo, para todos. Não contrariava terceiros, desconhecia a negação para o outro.
      Entrava em relações, as quais, agia de forma patológica, como se dependesse da pessoa para viver, como se quisesse ser aprovada em cada segundo que se passava. Fora muito rejeitada, o que deixou marcas. Marcas que tornaram-se intrínsecas ao seu interior.
     Tinha uma enorme dificuldade de deixar as pessoas irem embora, não conseguia compreender o ciclo da vida, onde àqueles que se dizem “para sempre”, quase sempre se vão. Poucos ficam. Mesmo assim sentia-se culpada, sem ter, na verdade, culpa alguma.
Colocava-se na posição de objeto, era “usada”.  Procuravam-na quando precisavam, utilizavam-na para crescer. Ela afeiçoava-se com a dor e por isso se submetia ao cúmulo do sofrimento para não perder quem ama. Acostumara-se a sofrer internamente.
     Era pouco profunda na maioria de suas interações, por puro medo. Medo, este, o qual se originara de relações anteriores e que criou traumas indeléveis em seu eu.  Medo de ser magoada novamente, medo de não ser suficiente, medo de ser traída, medo de ser enganada.
     Assume papéis que não são dela, mas que lhes atribuem. Talvez pra agradar, talvez pra se sentir útil e melhor consigo mesma. Tem uma autoestima baixa, irrecuperável.
     O pior de tudo era  que ela sabia. Sabia do que estava acontecendo, sabia do que a rodeava, sabia quem era realmente. Sabia, mas nada fazia.  Não se transformava por benefício próprio, apenas para os alheios. Onde irá parar alguém que vive para os outros?