sábado, 28 de junho de 2014

Bucólico.


      Deitou-se na grama verde daquele antigo campinho de futebol, como fizera em toda a sua infância. Lamentou ter crescido, lamentou a perda daquela felicidade simples de criança.
      Resolveu tirar o terno, após o dia cansativo de trabalho. Virou-se e sentiu as folhas em contato com seu peito nu. Lembrou-se de como a natureza era bondosa com o homem. Lembrou-se o quão gostoso era apreciar os pequenos momentos da vida.
      Por um momento, esqueceu-se dos problemas, daquele cotidiano agitado que o deixava tão estupefato. Decidiu que sempre voltaria ali quando quisesse abandonar as suas obrigações diárias e sentir-se livre por alguns instantes.
      Mirou o céu nublado e começou a perceber as formas nas nuvens, recuperando parte de sua essência. De repente, flagrou um anjo, por entre aquelas formas brancas. Esfregou os olhos com as costas das mãos pensando ser um sonho, mas se deu conta de que a realidade poderia ser bem melhor do que ele imaginava.
      Fez daquele momento único e transformador.

domingo, 22 de junho de 2014

Esconderijo interno.


      Silêncio ensurdecedor, tortura interna. Buscando respostas em seu self, discutindo suas próprias mazelas. Ninguém sabe o que se passa com aquela garota. Garota para alguns, mulher para si mesma. Cresceu antes do tempo.
      A vida tem sido generosa com ela. Poucos eventos exteriores fazem-na ter motivos para sofrer de verdade. Contudo, quando volta-se para o seu lado interno, a história muda. Consegue se entender e talvez tal entendimento não a favoreça. Talvez conhecer-se demais, seja uma progressiva fonte de sofrimento. 
      Há partes escondidas, que não devem ou podem vir à tona. Há algo que é peculiar e somente dela, que está oculto e que precisa permanecer naquele lugar, protegido. Ela não quer convocar o monstro que existe em seu eu. Quer mantê-lo sob seu controle, mesmo que isso seja cômodo e doentio. Não seria justo convocar algo com que ela não saiba lidar. Deixe-a com seus pensamentos, deixe-a com a sua máscara, deixe-a confortável, em seu esconderijo.


sábado, 14 de junho de 2014

O dilema da traição.

    

     
    Traição é um tema bastante complicado e ambíguo, sob o meu ponto de vista. Desde que comecei a ter relacionamentos amorosos, mudei inúmeras vezes meu conceito e opinião sobre.
     No início dizia que não perdoaria de forma alguma e que quem ama não trai. Só que as coisas não são tão simples assim na prática. É preciso analisar a situação, as causas e tudo o que circunda o motivo da traição. Acredito que a "culpa" não é somente da pessoa que traiu, mas sim, de ambos, afinal, o casal compartilha tudo juntos. O relacionamento refere-se aos dois e toda ação tem uma reação.
     Hoje em dia, acredito que não é porque a pessoa te traiu, que ela não te ame. É relativo. Nós, seres humanos, somos muito fracos. As vezes nos sentimos atraídos por um sorriso, um olhar, ou qualquer traço simplista, que nos cause encantamento. Em pleno século XXI, arrisco dizer que as pessoas são muito imediatistas e impulsivas. E esse é um fator que permite a maior possibilidade para que a traição ocorra.
     O fato é, inevitavelmente, estando solteiro ou em um relacionamento, você vai se sentir atraído por alguém. Agora o que devemos considerar é se a traição fica só no mundo das ideias ou se a pessoa é capaz de executa-la.
     Ao meu ver, não existe "eu estou apaixonado e não tenho mais olhos pra ninguém", pois se passar alguém com uma beleza que te chama a atenção, você vai perceber.
Então, não trair, implica em não ceder aos seus impulsos, em pensar em quem se ama antes de agir.
     Mas ainda assim considero a traição, baseada na nossa cultura, algo extremamente difícil de aceitar, perdoar e que deixa uma marca indelével ao ponto de o relacionamento poder nunca mais ser o mesmo. Querendo ou não, fazemos parte de uma sociedade monogâmica que exige a fidelidade como essencial.
     O curioso é pensar que isso não se aplica em outras culturas. E aí vem a minha indagação: Como seria o nosso pensamento se no Brasil fosse permitida a poligamia?
     Existem tantos tipos de amor. Será que podemos amar duas pessoas ao mesmo tempo, considerando estes diferentes tipos? Raramente, você encontrará um parceiro (a) que te agrade em todos os sentidos. E se você encontrar um quesito interessante em outra pessoa e passar a ama-la também por isso? Você, necessariamente, deixará de amar a primeira, que tem tantos quesitos agradáveis, só porque encontrou uma segunda?
     No fim, tudo depende de fatores sócio-culturais, os quais são inseridos em nós.


sábado, 7 de junho de 2014

A busca pela liberdade.


        O gelo tilintava no copo com whisky. Ela já estava na terceira dose e sentia seu corpo anestesiado. O cigarro companheiro diário, sempre na outra mão. A história se repetia. A mulher, metida a pseudo-escritora, levava o copo à boca inúmeras vezes, até despejar o seu torpor em linhas tênues e adormecer toda a sua dor.
        Há muito tempo, perguntava a si mesma o que ela era, se ainda haveria esperança de futuro ou se era melhor parar naquele instante. Não suportava mais remediar o sofrimento dilacerante com álcool. Teria que encontrar outra forma.
       Decidiu prevenir. Abriu a gaveta da escrivaninha e ficou a mirar por alguns segundos o revólver comprado na semana anterior. Nunca teve coragem o suficiente para toca-lo depois do dia da compra, no entanto, naquela hora era ideal.
Escrevia e chorava copiosamente, enquanto segurava o revólver com a outra mão. Seus olhos estavam vermelhos assim como sangue. Apontava a arma nas têmporas e simulava a morte. Era covarde, não conseguiria puxar o gatilho. 
       Colocou o copo sobre a mesa, abraçou as pernas e colocou a cabeça entre os joelhos. Olhou pela janela e se deparou com uma noite incrivelmente linda, em um céu tom cinza iluminado por uma lua cheia e brilhante. 
       Levantou-se e foi a caminho da sacada. Sentiu o vento cortar seu rosto e teve a certeza de que aquele era o momento rompante. Impetuosa, jogou-se do quarto andar. Finalmente sentiu a liberdade jamais encontrada em toda a sua vida.