terça-feira, 4 de setembro de 2012

Marcas evidentes.


      Sentia o calor das labaredas encontrar o meu corpo. Visualizava aquelas flamas ardentes há algum tempo. Ouvi o sino da Igreja tocar, eram 18h. Passei a tarde inteira ali, imóvel. Mal reconhecia os demais lugares de minha casa, havia me acostumado com aquele em particular: a lareira.
Mantinha o meu interior congelado com inúmeros cristais. Talvez se permanecesse em frente a todo aquele    fogo, algo poderia mudar. Contudo, após várias horas, percebi que não haveria solução.
     Cansei-me de esperar. Levantei-me e cheguei rapidamente ao quarto. Encontrava-me despida, olhava o meu corpo nu e tentava descobrir o motivo de tanta rejeição. Estava sem perspectiva alguma. Mirei para o chão e me comparei ao nada. Mantive os olhos amedrontados voltados para baixo, enquanto o meu corpo começava a ficar estafado. Estafado como o meu coração, que há muito tempo, havia se perdido.
     Decidi encarar minha imagem novamente. Desviei o olhar e observei uma segunda imagem, que me causou um enorme espanto. A garota ao meu lado, parecia estar presa no espelho. Estava sufocada e implorava incessantemente para que aquele vidro se rompesse. Ao perceber a agonia da menina, desejei tentar salvá-la. Peguei o bastão de madeira que estava jogado no canto do meu guarda-roupa e estilhacei o tal espelho, a fim de libertá-la. Em meio a tantos pedaços de vidraria, compreendi que ela já não estava mais lá. Desaparecera.
     Senti o gosto salgado de minha lágrima, permear os meus lábios. Busquei um vestido branco de linho e cobri meu corpo. Sentei na cama por alguns seguidos. Posteriormente, segui para a minha velha lareira, contudo não a localizei. Franzi a testa, e esforcei-me para entender o que estava acontecendo, afinal, era uma grande confusão.
     Até que voltei à realidade. Reparei que o fogo, efeito da minha imaginação, significava uma tentativa inalcançável de recuperar o verdadeiro sentido do meu ser, a melhor parte de mim.
     Embora, estivesse com uma aparência chicoteada pelas quedas e frustrações da vida, a minha essência ainda permanecia ali. Agora, eu podia olhar para dentro e detectar a minha alma. Notei que não era nada do que eles exigiam, mas era tudo o que queria ser. Seria fruto de um orgulho próprio e transformaria os não’s dos outros em um sim, para o meu ego.


4 comentários:

  1. Fez bom uso de elementos metafóricos no cenário para sintetizar os sentimentos... Em particular, apreciei essa frase: "Notei que não era nada do que eles exigiam, mas era tudo o que queria ser."

    Possui um grande significado, referente à aceitação de si mesma.

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  2. "Até que voltei à realidade. Reparei que o fogo, efeito da minha imaginação, significava uma tentativa inalcançável de recuperar o verdadeiro sentido do meu ser, a melhor parte de mim."
    simplesmente adorei este trecho, achei profundo. E por muitas vezes já me vi tentando reencontrar meu ser e resgatar a melhor parte de mim tbm.

    http://annadecassia.blogspot.com

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  3. ótimo texto

    http://somethingaboutbooks.blogspot.com.br/2012/09/conheca-o-personagem-tessa-scott.html

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