terça-feira, 18 de setembro de 2012

[Parte 2] Navegando em outros mares.



    Um indígena chamado Piatã conversava em Tupi Guarani com o Pajé da tribo. A tribo Araweté estava na região há 10 anos e contava com 15 integrantes. Na época que conquistaram a ilha, havia 70 deles, contudo, ocorreu um genocídio.
    Entre os índios, um se destacava. Marcos olhava-o assustado. Ele era negro e não tinha as características físicas dos demais, apenas usava os mesmos trajes e tinha pinturas pela pele. O pajé chamou-o e ele seguiu na direção de Marcos. Começou a falar português e ele logo entendeu que Boyrá não havia nascido naquela tribo. 
    - O que um branco está fazendo em nosso território?
    - O que um negro está fazendo em uma tribo indígena?
    - Não sou eu, o prisioneiro. Sou índio e aqui é o meu lugar, agora. Para manter-se vivo, respeite-nos ou não teremos outra saída.
    - Você poderia estar por aí, navegando nos mares, conhecendo tecnologia e permanece neste atraso. O que o faz permanecer aqui?
    - Cale-se! Já basta. Serás entregue ao pajé e ele fará com você, homem branco, o que fizeram com a nossa tribo.
    - Não, por favor! Sou corajoso demais, para morrer aqui e assim. Enfrentei tempestades e mares revoltosos. Dê-me uma chance de viver.
    - Sua coragem não é voltada para o bem ao próximo, homem branco. Se assim fosse, observaria nossa cultura como parte da sua, pois desde muito tempo, vocês sugaram os hábitos indígenas.
    O diálogo interrompeu-se quando o Pajé aproximou-se do condenado com um enorme tacape em sua mão. Os olhos de Marcos se arregalaram e ele engoliu seco. A única alternativa que ecoava em sua mente, era implorar pela vida. E foi o que ele fez.
   Após o ranger de dentes do cativo, Boyrá decidiu propor-lhe uma alternativa: 
   - Ou você aprende a viver em nossa aldeia ou é atirado ao mar e será encantado pelas sereias que o levarão para o fundo, onde existe escuridão.
   Marcos balançou a cabeça positivamente. Ele sabia do que estava por vir, mas não tinha outra saída. Boyrá o desamarrou do tronco e lhe entregou uma machadinha de pedra.
   O homem não entendeu o que o aborígine queria dizer, mas o acompanhou, se embrenhando na floresta.
Boyrá subiu em um coqueiro e retirou o fruto, arremessando-o nos braços de Marcos. Por sua vez, o homem branco, começou a quebrá-los, afinal estava com sede e fome. Marcos tomou um gole da água de côco, porém foi surpreendido pelo seu guia:
   - Isto não é para você. Os mais velhos da tribo possuem preferência na comida e bebida. Jovens se alimentam de sementes que encontram pelo caminho. Comece a procurá-las.
   O tom rígido da voz de Boyrá incomodava o homem branco, aliado ao ronco de seu estômago e à sua boca seca. Sentiu sua visão falhar e a última coisa que ouviu foi o barulho das árvores balançando.
   Acordou com água que jogaram em seu rosto. Colocaram-no de pé e disseram-lhe:
   - Aqui é preciso aprender a dividir e respeitar o direito do outro. Se os anciãos não tivessem se alimentado, com certeza não sobreviveriam, mas você, como jovem e forte que é, teve apenas uma recaída.
   Para Marcos, tudo aquilo se transformou em uma tortura. A única hora que ele poderia esquecer de seu sofrimento, era à noite, ao deitar em uma cama. Mas não. Não era como ele imaginava. A oca era fria e deitava-se sobre uma construção de palha e madeira, produzida pelos próprios indígenas. Por ser um branco, concretizava-se a maior das humilhações.

[Parte 1]

7 comentários:

  1. Quer saber? Esse Marcos está tendo bem o que merece, detesto preconceito, seja ele qual for.

    Enfim, adorei as duas partes do conto, muito bem escritas e muito bem detalhadas.

    Um beijo, Misunderstood.

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  2. Oiiii....passando pra ver a segunda parte do seu conto. Obrigada pela visita no meu, eu também não era muito chegada em make, mas as vezes é bom saber algumas coisas que facilitam pra gente....continue passando lah se gostar!!!

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  3. Nossa adoreiiiiiii!!!
    se quiser conhecer o meu blog tbm
    www.priscilafantini.blogspot.com.br
    estou de seguindo ;)

    beijossss

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  4. Estou gostando muito do conto, imagino mesmo o choque de cultura que ele esta sofrendo...

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  5. Não pude ler a primeira parte do conto, mas esta, me chamou muita atenção. Muita originalidade sua explorar este tema de uma forma tão minuciosa e detalhada, gostei bastante, mesmo.

    Beijos, boa semana!

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