sábado, 7 de abril de 2012

(Des)embarque.




     O alarde da chaminé despertou-me, do pesadelo rotineiro. Naquele vagão de trem, comecei a ficar atordoada com a nostalgia. Há 2 anos atrás, um acontecimento modificou minha vida. Através de poemas, tentava revelar parte da angústia que me assolava. Em todos eles, a palavra ‘lealdade’, estava presente.
     De fato, uma mulher de 27 anos, ainda não descobrira o verdadeiro significado daquelas letras unidas. Abri a maleta, folheei o dicionário e novamente, parei naquela página. O canto da folha estava destinado ao significado que me apavorava. Li e reli inúmeras vezes, até soletrá-lo em alto e bom som: “Lealdade é a qualidade, ação ou procedimento de quem é sincero, franco, honesto e fiel aos seus compromissos.”
     Voltando ao tempo, lembrei-me da última conversa com Madelaine.
     Mad, como a chamava carinhosamente, entrelaçou seus dedos nos meus e beijou-me a testa, dizendo: “Não importa, o que aconteça ou quem apareça, sempre serei leal a ti e vc a mim. Estamos juntas.” O sussurro da melhor amiga, era melodia para meus ouvidos. Aquela a quem confiava meus maiores medos e segredos.
     Após alguns dias, os telefonemas cessaram e as visitas encerraram-se. Procurei-a incansavelmente, mas ela encontrava-se fechada pra mim. Embora eu não soubesse o verdadeiro motivo de tal ato, em meu interior, restava uma esperança, de que passaria e o tempo a traria de novo em minha amizade. Por fim, descobri que eram apenas ilusões e nada mais.
     Com um estrondo da roda dianteira, derrubei o café amargo que segurava em uma das mãos e conduzi-me ao presente. Encostei os dedos no rosto e senti as olheiras, de noites mal dormidas, pertencentes àquela época.
     Coloquei a xícara sobre a mesa e mirei rapidamente o meu amigo predileto, Billy. Com suas patas peludas, pulou em meu colo e deu-me uma enorme lambida na face. Mesmo gostando de sua companhia, aquele não era o momento adequado. Assentei-o no chão, em poucos segundos. Abri o compartimento de saída e resolvi experimentar de perto, o vento que batia na janela. Demorei algumas horas para retornar. Troquei os passos e arrisquei uma queda, perante aos ziguezagues do trem.
     Ao chegar em minha cabine, Billy estava com um olhar triste, porém ainda me aguardava quase intacto no local onde o colocara. A vista era semelhante desde que deixei o lugar, contudo havia uma peculiaridade que se destacava no meio. O dicionário estava marcado em uma passagem que dizia “Vasculhai o que existe de mais puro ao seu lado e não lamente pelo que já se foi.” 
     Surpresa, estava refletindo sobre o capítulo, quando de repente, o felino prostrou sua cabeça em minhas pernas, como se pedisse carinho. Em um insight, compreendi que andara pelo caminho errado. Aquele animal doce, movido pelo instinto, tornara-se fiel à sua dona, esperando-a chegar, enquanto o próprio ser humano dotado de razão, quebra suas promessas consideradas eternas.
     Ocorreu-me uma idéia mirabolante, mas ali estava o princípio de tudo: O homem é egoísta por si só. Nascemos egoístas. Contudo, precisamos deixar de ser hipócritas a ponto de cobrar do outro, o defeito que também está escondido em ti.
     Desembarquei na primeira estação e entreguei o livro ao editor. No ano seguinte, a publicação seria a marca de minha (re)descoberta.



7 comentários:

  1. Adorei o post,adorei o blog e to seguindo..

    Se quiser visitar o meu fique a vontade

    http://bruhbrito.blogspot.com/

    Se quiser seguir e comentar fique a vontade também..

    Beijo e sucesso!

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  2. Lembrei-me que "o trem que chega é o mesmo trem da partida"...

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  3. Os caminhos que tomamos trazem alegria e dor, mas nós que escolhemos se nos deliciaremso com a alegria e aprenderemos com a dor, ou não. Se as pessoas passaram em sua vida é por qiue não mereciam ficar.

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  4. Legal o seu desfecho, concordo que todos nós somos muito egoístas e seria hipocrisia negar isso! Lindo texto e bem escrito, Beijão, www.spiderwebs.tk

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  5. O maior poema


    Toda uma vida
    é um grande
    poema composto
    de adjetivos
    apreciativos
    ou não vividos...
    Assim sendo
    todos nós
    somos poetas
    de nossa
    própria história...


    Poeta Francis Perot

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  6. Nossa, como sempre seus textos são marcantes e fico loucamente prendido até descobrir o fim.
    Verdade seja dita, prometemos tanta coisa em nossa vida que não conseguimos cumprir, que parecemos seres gananciosos por palavras floreadas, sem uma verdade estampada em nossa hipocrisia.
    Queria poder cumprir tudo o que prometo, tudo o que sinto.
    Para nunca mais me sentir mal assim como estou me sentindo ao ler esse texto.
    Mal no sentido reflexivo, sem nada deprimente ou coisa do tipo...
    Adorei o texto Bia.
    Como sempre, extremamente surpreendente.

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  7. Ow gostei muito das postagens... Bem criativas... parabéns..
    Nova post lá no blog, passa lá.
    http://jpbigblog.blogspot.com.br/

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