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sábado, 18 de maio de 2013

Orvalho.

 
   A chuva insistia em cair. Os vidros permaneciam embaçados e com pingos d’água. Fabiana observava o horizonte cinzento enquanto pintava sua tela. Utilizava traços próprios e suas imagens passavam um ar de descontração. Era apaixonada pela aquarela, desde criança.
   A garota crescia e com ela, a ânsia por ser uma artista renomada. Contudo, seu fascínio pela pintura era tamanho que criara um mundo apenas seu. Decidiu ser reclusa, presa  a este sonho. Os pais, ao perceberem a situação da filha, mandaram-na para um colégio interno da região.
   A adolescente ruiva sobreviveu àquele lugar durante cinco longos anos. Aos dezessete, considerava-se pronta para ultrapassar os muros do reformatório. Fugiu. Sentiu a liberdade em suas entranhas.
   Na sua primeira noite livre, tomou um porre e acordou na calçada, em frente ao bar. Levantou-se com dores de cabeça, náuseas e com uma aparência cansada. Vestia maltrapilho. Embora não estivesse nada apresentável, resolveu ir ao cartório e iniciar sua transformação. Mudou o nome, cabelo, estilo, endereço, e enfim, a vida.
   Conseguiu um trabalho de telefonista. Após um mês na agência, conheceu a morena Karla. Uma amizade nasceu naquele instante. Karla e Fabiana aproximaram-se a ponto de confiarem segredos uma à outra. No entanto, à medida que elas se conheciam intimamente, Karla percebeu a existência de um segredo.
   Em meio a tentativas frustradas de descoberta, a morena resolveu indagar sua amiga pela última vez. Karla chegou ao apartamento de Fabi e chamou pela ruiva, mas não obteve resposta. Vagou pelos cômodos do local até encontrar a amiga debruçada no assoalho, manuseando alguns pincéis.
   Fitou-a por segundos e sua face adquiriu um semblante confuso. Tocou o ombro de Fabi e perguntou o que significava aquela cena. Fabi decidiu contar à amiga, o motivo de sua angústia.
   Desejava voltar a sentir os olhos brilharem frente às telas de sua autoria, desejava sentir o cheiro das tintas. Porém, Fabi enfraquecera. Ainda sentia a dor de carregar o fardo desde a infância até à adolescência. Não conseguia enfrentar seus receios passados. Karla escutava o desespero da amiga, com pesar. Refletia sobre uma solução. A morena propôs que ela assinasse as obras, para preservar a identidade de Fabi.
   No recomeço as pinturas ganhavam cores escuras e expressões vazias. Apesar disto, a habilidade da ruiva era incomparável, o que lhe proporcionava altas rendas no fim do dia. 
   Seis meses mais tarde, os tons das telas começaram a mudar. As cores do arco-íris apareciam com frequência nos quadros. Sua alma se iluminara novamente.
   Com os olhos fixos no orvalho, Fabi regressou ao presente. Em plena nostalgia, percebeu a obra prima, fruto de sua criação, enquanto estava perdida em seus nuances de anos atrás.

sábado, 2 de março de 2013

[Parte 1] Ghost City.

 
 
    Rafaela acordara novamente, aos gritos, no meio da noite. Colocou a mão no peito e sentiu um torpor inexplicável. Levantou-se da cama rapidamente e se direcionou até à cozinha. Agarrou uma taça e encheu-a com vinho. Quando mirou-a, se assustou ao perceber que o líquido tinha o aspecto de puro sangue. Segurou fortemente a taça até que parte dela se quebrou, cortando sua pele. Rafaela, usando seu instinto, jogou-a no chão, estilhaçando-a.
    Derrotada dobrou os joelhos no assoalho. Relembrou a sua infância, em que sempre caía ao chão, nas madrugadas daquele lar infantil. Tinha pesadelos, desde essa época. Ninguém a socorria, continuava só. Por isso, decidiu se isolar do mundo e viver ao lado da solidão, afinal ela já se acostumara com a sua companhia.  
    Era uma criança considerada estranha, pelos demais. Ouvia vozes, vultos, luzes, que os demais não percebiam. Os cuidadores levaram-na em psicólogos e psiquiatras, alegando que ela estivesse com algum distúrbio mental.  Mas nada foi constatado.
    Rafaela sempre ficava perdida, devido a esta situação. Apenas tentava pensar, que o seu dom fosse passar, porém, não passou. Na manhã seguinte, estava determinada a buscar o auxílio de um espírita que circundava a região.
   O despertador apitou às 7:00. Rafaela, com muito sono em razão da noite turbulenta, adormeceu mais 5 minutinhos, até que um pesadelo a acordou. Após levantar-se, procurou alguma roupa apropriada para o momento. Vestiu uma regata branca, uma calça jeans e seu All Star desbotado.