sábado, 4 de agosto de 2018

Angústia dicotômica.



E de repente você ama. A vida te pega de surpresa em um curto espaço de tempo, sem avisar, consultar ou informar, enquanto não era o seu real desejo. Você ama de forma inesperada, dia após dia, nos pequenos detalhes. Você ama sem culpa, de forma leve, intensa, pura e completa. Aquela sensação te transborda e te leva a ter emoções inimagináveis ao lado de alguém. Você tem a certeza de que ela é o amor da sua vida, porque possui todas as qualidades e os defeitos que um dia você idealizou no outro. Ela te faz bem e feliz na maior parte do tempo. Ela te ama, te valoriza, te reconhece. É compreensiva, companheira, carinhosa, madura e sua! Todavia, você se encontra em uma situação semelhante e já vivida anteriormente a qual te amedronta por inteira. Você sente medo de que a história se repita, de que o ciclo volte, de que ela não consiga admitir a relação de vocês e continue negando o seu eu interior. Sente medo pois apesar da imensidão do sentimento de ambas, ela pode preferir não enfrentar e te deixar, tal como outras pessoas o fizeram no passado. Medo de que ela não seja forte o suficiente para esta luta, mesmo que você prove diversas vezes que está e estará lá, segurando a sua mão. Você fica temerosa, porém, ao mesmo tempo, sabe que ela não deve ser julgada por isso, uma vez que as consequências de “sair do armário”, não são nada fáceis.
Através destas palavras tento expressar a minha angústia dicotômica entre amar e ser amada, mas não ser assumida na vida de alguém. Por vezes o medo me paralisa, distancia, sufoca, cria muros de proteção e me faz querer fugir. Em contrapartida, o amor, a vontade e os planos de ter um futuro ao lado dela me fazem permanecer. A partir deste contexto, reflito sobre quantas vezes mais precisarei viver sob tais circunstâncias por amar alguém do mesmo sexo que o meu, quantas vezes mais terei que guardar o que sinto no esforço de não machucar quem eu amo, quantas vezes mais terei que amar e me reprimir... É doloroso pensar que você ama alguém e recebe reciprocidade, mas devido às questões sexuais impostas pela sociedade não podem viver como um casal considerado “normal”.
Como lidar com o fato de que, devido a tanta repressão social, a sua amada não se aceita totalmente como o ser lindo que é, apenas por ser homossexual? Como lidar com a condição de não ocupar o lugar de namorada na vida dela em todos os sentidos? Como ser compreensiva a tal ponto, quando a sua vontade interna é gritar aos quatro cantos do mundo que você a ama? Como viver escondida ao lado de quem se ama e ainda ser justa consigo mesma após você ter se empenhado tanto para conseguir a sua liberdade? Como não poder expressar todo esse sentimento de amor? Como a sociedade pode ser tão preconceituosa?
Imersa nessas perguntas, me calo, pois ainda não encontrei as respostas...


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