A chuva insistia em cair. Os vidros permaneciam embaçados e
com pingos d’água. Fabiana observava o horizonte cinzento enquanto pintava sua
tela. Utilizava traços próprios e suas imagens passavam um ar de descontração.
Era apaixonada pela aquarela, desde criança.
A garota crescia e com ela, a ânsia por ser uma artista
renomada. Contudo, seu fascínio pela pintura era tamanho que criara um mundo
apenas seu. Decidiu ser reclusa, presa a
este sonho. Os pais, ao perceberem a situação da filha, mandaram-na para um
colégio interno da região.
Sobreviveu àquele lugar durante cinco
longos anos. Aos dezessete, considerava-se pronta para ultrapassar os muros do
reformatório. Fugiu. Sentiu a liberdade em suas entranhas.
Na sua primeira noite livre, tomou um porre e acordou na
calçada, em frente ao bar. Levantou-se com dores de cabeça, náuseas e com uma
aparência cansada. Vestia maltrapilho. Embora não estivesse nada apresentável,
resolveu ir ao cartório e iniciar sua transformação. Mudou o nome, cabelo,
estilo, endereço, e enfim, a vida.
Conseguiu um trabalho de telefonista. Após um mês na agência,
conheceu a morena Karla. Uma amizade nasceu naquele instante.
Certa vez, Karla chegou ao apartamento de Fabi
e chamou pela ruiva, mas não obteve resposta. Vagou pelos cômodos do local até
encontrar a amiga debruçada no assoalho, manuseando alguns pincéis. Fitou-a por segundos e sua face adquiriu um semblante
confuso. Tocou o ombro de Fabi e perguntou o que significava aquela cena. Fabi
decidiu contar à amiga, o motivo de sua angústia.
Desejava voltar a sentir os olhos brilharem frente às telas
de sua autoria, desejava sentir o cheiro das tintas. Porém, Fabi enfraquecera.
Ainda sentia a dor de carregar o fardo desde a infância até à adolescência. Não
conseguia enfrentar seus receios passados. Karla escutava o desespero da amiga,
com pesar. Refletia sobre uma solução. A morena propôs que ela assinasse as
obras, para preservar a identidade de Fabi.
No recomeço as pinturas ganhavam cores escuras e expressões
vazias. Apesar disto, a habilidade da ruiva era incomparável, o que lhe
proporcionava altas rendas no fim do dia. Seis meses mais tarde, os tons das
telas começaram a mudar. As cores do arco-íris apareciam com freqüência nos
quadros. Sua alma se iluminara novamente.
Com os olhos fixos no orvalho, Fabi regressou ao presente.
Em plena nostalgia, percebeu a obra prima, fruto de sua criação, enquanto
estava perdida em seus nuances de anos atrás.

Esse texto me despertou uma nostalgia sem fim. :|
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