sábado, 7 de junho de 2014

A busca pela liberdade.


        O gelo tilintava no copo com whisky. Ela já estava na terceira dose e sentia seu corpo anestesiado. O cigarro companheiro diário, sempre na outra mão. A história se repetia. A mulher, metida a pseudo-escritora, levava o copo à boca inúmeras vezes, até despejar o seu torpor em linhas tênues e adormecer toda a sua dor.
        Há muito tempo, perguntava a si mesma o que ela era, se ainda haveria esperança de futuro ou se era melhor parar naquele instante. Não suportava mais remediar o sofrimento dilacerante com álcool. Teria que encontrar outra forma.
       Decidiu prevenir. Abriu a gaveta da escrivaninha e ficou a mirar por alguns segundos o revólver comprado na semana anterior. Nunca teve coragem o suficiente para toca-lo depois do dia da compra, no entanto, naquela hora era ideal.
Escrevia e chorava copiosamente, enquanto segurava o revólver com a outra mão. Seus olhos estavam vermelhos assim como sangue. Apontava a arma nas têmporas e simulava a morte. Era covarde, não conseguiria puxar o gatilho. 
       Colocou o copo sobre a mesa, abraçou as pernas e colocou a cabeça entre os joelhos. Olhou pela janela e se deparou com uma noite incrivelmente linda, em um céu tom cinza iluminado por uma lua cheia e brilhante. 
       Levantou-se e foi a caminho da sacada. Sentiu o vento cortar seu rosto e teve a certeza de que aquele era o momento rompante. Impetuosa, jogou-se do quarto andar. Finalmente sentiu a liberdade jamais encontrada em toda a sua vida.

4 comentários:

  1. Que lindo,bravo!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Gosto de crônicas fortes como a vida, a verdade é que há mesmo uma inquietação humana, mas temos que superar a própria vida, temos que dar a volta por cima e sairmos vitoriosos, no caso da crônica, teve o final que desejava, a liberdade fatal!
    bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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  2. Nossa, maravilhoso, B. Adorei esse texto.

    Beijos.
    www.dilemascotidianos.blogspot.com

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  3. Triste, porém incrível. Vivo me questionando se suicídio é um extremo ato de coragem ou uma incrível covardia. Conto maravilhoso.

    Beijos =*

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