sábado, 19 de janeiro de 2013

Palavras, apenas palavras.




" (...) Platão dizia que a linguagem é um pharmakon. Esta palavra grega, que em português se traduz por poção, possui três sentidos principais: remédio, veneno e cosmético. Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou um remédio para o conhecimento, pois, pelo diálogo e pela comunicação, conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Pode, porém, ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, fascinados, o que vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras ou falsas. Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras."
                                                                                              
                                                                                        Marilena Chauí.

     Diante deste pequeno fragmento, eu lhes pergunto, em qual dos três sentidos estamos empregando as palavras? Afirmo, que abrangemos os três significados quando consideramos a linguagem atual, pois há uma relação de interdependência entre eles.
     Tudo o que dizemos, está sujeito à contradição. Dotamos de uma verdadeira insegurança quando pronunciamos uma palavra, frase, texto e derivados. As vezes não sabemos o que a palavra quer realmente exprimir, as vezes 'assassinamos' a gramática, as vezes realizamos discursos mal ditos e principalmente empregamos a linguagem da maneira que queremos ou necessitamos, como se fôssemos os autores de todo um contexto linguístico.
     Tais erros são construídos devido à falta de informação e talvez com uma boa leitura, poderemos aumentar a nossa fonte de conhecimento. Porém, o problema máster é a frequência ininterrupta com que utilizamos as palavras para dissimular o que somos ou sentimos, ou seja, abusamos da linguagem como cosmético.
     Aplicamos a ambiguidade a nosso favor, manipulamos palavras e consequentemente influenciamos ideias. Usufruímos do nosso discurso em benefício próprio, seja através de palavras não ditas ou por meio de palavras ditas de forma enganosa. E então, a linguagem não é vista com seriedade. Ela torna-se produto dos sujeitos incapacitados de conhecer o verdadeiro poder das palavras. 
     Desta maneira, o discurso equivocado é passado adiante, sem que ninguém questione se é verídico ou não. A partir desta situação, a linguagem deixa de ser cosmético e começa a ser veneno. Veneno, o qual, nos cega, impedindo que possamos questionar o discurso do outro, antes de nos apropriarmos dele.
     A fim de vencer a alienação originada pelo excesso de veneno, podemos experimentar a linguagem como remédio, encontrando nas palavras o caminho para a transformação. Encarando a linguagem como algo essencial e que nos diferencia dos demais seres. Algo que nos possibilita aprender com o outro, expressar sentimentos e ideais.
     Nós, os contemporâneos, não só precisamos como também devemos valorizar o que é dito e o que é ouvido. É necessário cumprir com o nosso discurso e perceber que a magia das palavras é imensa demais para ser jogada ao vento.

9 comentários:

  1. Gostei. Pena hoje as pessoas confundirem as palavras com os próprios sentimentos e as próprias ações. Por isso a banalização do "amor" -palavra e não sentimento-, por exemplo.
    Costumo dizer também que palavras que não encontram ressonância nas atitudes e condutas, são apenas palavras.

    Boas palavras!

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  2. Oi, B., boa tarde.
    A comunicação é o pilar para uma boa convivência, e para isso é fundamental o bom uso da palavra.
    Bjos.

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  3. Muito bom texto, B.!

    Que as palavras sirvam, cada vez mais, para nos libertar!

    Beijos.
    www.dilemascotidianos.blogspot.com

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  4. Oi B.

    Então, um texto muito reflexivo pra minha tarde,né?

    acho que tenho usado mais as palavras como "cosméticos". Me escondendo debaixo de tantas rimas mal feitas, de tantas ilusões desfeitas. Maquiando sorrisos nas faces de outras pessoas, enquanto tento pregar o meu com um grampeador.

    Um beijo, boa tarde.

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  5. Palavras são pequenas demais para expressarmos nosos verdadeiros sentimentos. Desde moleque eu sempre quis me expressar com um amontoado de palavras que eu julgava categóricas, mas nunca consegui decifrar o frio na espinha que um olhar profundo nos traz, muito menos exaltar o amor de meus pais para comigo e suas batalhas.
    Sempre tive um problema, que foi de conseguir escrever bem apenas quando estava mal, ontem abri um documento de Word e não saiu nada, não tinha o que questionar, não sentia meus dedos gelarem, não sentia um rancor alucinógeno que costumava ter tempos atrás.
    Não sei se estar bem matou o meu eu questionador, porque desde que eu me aliviei de uma dor entrei em uma depressão de falta de expressão.
    O que será que está acontecendo? Será o fim do Reinaldo questionador?
    Eu não sei, mas entre escrever e me sentir bem, juro que prefiro me sentir bem, porque antes as palavras conseguiam ser expressas, mas o olhar estava fosco.
    Palavras, apenas palavras.ADOREI BIA!

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  6. Eu sou uma verdadeira apaixonada por palavras e suas ambivalências. Então, sou suspeita para falar qualquer coisa sobre linguagem. Mas acho o seguinte: se as pessoas se concentrassem em ler nas entrelinhas das expressões e atos e não tanto no que é dito ou escrito, não haveriam tantos mal entendidos por aí.

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  7. Como leitora assídua e pseudo escritora tenho o uso das palavras como uma necessidade vital. É incrível como a maioria das pessoas não consegue perceber que uma simples frase, no momento certo, pode ressuscitar uma alma e na pior das hipóteses, destruí-la. Embora não seja a mestre de me comunicar verbalmente, foi através da escrita que estabeleci meu laço mais forte com a realidade contemporânea, e vejo o ato de escrever como uma forma de transformar meu cotidiano, e as vezes, provocar o cotidiano alheio também. Provocando de forma benéfica, eu espero...

    Adorei o texto, você o articulou muito bem, como sempre!

    Beijos ;*

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  8. Adorei a forma como tu abordou de uma forma simples um assunto tão importante. Muitas vezes nós vimos pessoas utilizando as palavras de uma forma pobre, sem vida... Mal sabem elas que para muitos, a escrita é fonte de vida, é um escape da vida. Ou que para tantos, é parte fundamental de uma boa comunicação.
    Um beijo, @pequenatiss.

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