sexta-feira, 30 de março de 2012

Anonimato.


     A cena era a mesma da sexta-feira passada: goles de whisky, cigarros tragados, roupa preta, pupilas perdidas no tempo, cadeiras ao chão e o bar mais afastado de sua realidade. As unhas vermelhas eram um mero símbolo daquilo que a corroía por dentro. Por muitas vezes, quis arrancá-las, mas a dor parecia impregnada.
     Seus devaneios levaram-na àquele lugar familiar em sua mente. Lembrava-se de que ainda poderia se perder por duas noites, antes que o sol nascesse na segunda-feira e colocasse tudo em 'ordem'.
     Encontrava uma maneira de se esquivar, através do trabalho. Era uma excelente profissional, reconhecida por seu talento, que lhe proporcionava grandes lucros. Mesmo com os raros sorrisos, a amargura insistia em aparecer.
     A mansão que pertencia ao seu falso 'eu', ficava às moscas, quando o final de semana apontava. O Hope Bar's tornava-se seu abrigo, onde ninguém a conhecia, talvez, nem ela mesma.
     Após a última gota de bebida, a executiva decidiu deitar em um banco de praça e fitar o céu. As nuvens brancas ganhavam espaço naquela madrugada de inverno. Viajando em seu ego, ela acordou com respingos de água nos dedos. Levantou atemorizada e compreendeu que segurava um copo de porcelana. 
     Embora o sol tivesse aparecido, um bloco pequeno de gelo ainda restara intacto. Mirou aquele cubículo branquinho e enxergou parte de sua alma dentro do recipiente. Em poucos segundos, sentiu seu corpo esvair-se como se não pudesse controlá-lo.
     O temor lhe amedrontava, parecia estar em outro universo, enfrentando as suas terríveis sombras. Fechou os olhos fugazes e desejou se encontrar novamente. Com um suspiro longo, voltou a si. Apertou a mão, quebrou a porcelana e cortou-se. Pela primeira vez, sorriu ao perceber que aquela dor era física e que finalmente seu peito estava cheio de explosões.

7 comentários:

  1. BLOG MANEIRO PARABENS http://wps10.blogspot.com.br/

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  2. e verdade mesmo viu

    http://blogdosgoiabas.blogspot.com.br/

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  3. Às vezes estamos tão anestesiados pela vida que essa dor é precisa: um choque de realidade.

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  4. bonito texto. tem talento para escrever.
    parabéns

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  5. adorei querida, bem descritivo.

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  6. Há vezes em que estamos tão afundaos em nossa rotina de vida que precisamos de uma fuga total dela mas temos que tomar cuidado para que tal fuga não ultrapasse a nossa capacidade de voltar para a nossa vida "real" pois se vc a construi daquele jeito de algum modo ela é importante pra vc.

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  7. Eu acredito muito na ideia de que certas coisas são tão essenciais que só fazem diferença na falta ou no mal funcionamento. O "Ser" acaba sendo uma delas. Afastar-se de si é uma boa forma de se encontrar.

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